sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Arte, Natureza e Criatividade

A Criatividade Humana, paralelamente com uma grande capacidade de trabalho e dedicação, ainde de surpreendem, felizmente, todos os dias!

Wolfgang Laib é um dos porta-vozes dessa mortal magnificência, trabalhando sobretudo com produtos da natureza, e que por sistema, demoram ANOS a acumular... como "quilos" de pólen, mas também leite ou mel.

Pesquisem, por favor, para bem da nossa sanidade enquanto sociedade...


"Pedra de Leite"


"Torre de Favos de Mel"


"Pólen"


"Arroz e Latão"


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Pelo Tempo: "Os Sons de 2012 – Nacional" (2013-11-01)

[Para matar saudade dos sons que descobri...]

Na sequência do último artigo, dedico-me agora aos discos mais referidos nas revistas da especialidade portuguesas, assim como às listas de melhores álbuns do ano. Não é tão fácil como a nível internacional, não existindo massa suficiente de crítica e análise musical.

Mesmo assim, cada vez mais se escreve sobre música, com uma “crítica de autor” de jovens jornalistas, sobre um vasto número de criativos projetos musicais em Portugal, assistindo-se ainda à consolidação de uma nova geração de valores.

Esta lista pretende apresentar os melhores álbuns nacionais do ano, com base na crítica especializada, que procura destacar os melhores trabalhos: os mais sensíveis, mais criativos, ou seja, a melhor música em detrimento dos mais vendidos (embora não sejam aspetos incompatíveis…).

As revistas consultadas foram a P3 (Público), Bodyspace e Blitz, sendo as únicas que apresentam uma lista com classificação. Vários sítios online foram também tidos em consideração, pelo número de menções que os álbuns tiveram, destacando-se sempre um fator comum: a edição de muitos trabalhos em 2012, por jovens artistas, muitos deles em estreia. A lista é então a seguinte:

10. Supernada: “Nada é impossível”. Aproveitando a boleia do revivalismo dos Ornatos Violeta, o atual projeto de Manuel Cruz apresenta um poderoso trabalho, com a irreverência roqueira do costume.

9. Carminho: “Alma”. Uma das melhores representantes da nova música portuguesa de cariz internacional, atingindo um sucesso merecido, com base na intensidade, verdade e emoção que coloca nas suas canções.

8. B Fachada: “Criôlo”. Bernardo Fachada não para, nem de gravar, nem de nos surpreender. A qualidade e a consistência juntam-se à originalidade, agora com ritmos africanos e cheio de estilo.

7. Pega Monstro: “Pega Monstro”. Portugal também tinha direito a uma banda de duas irmãs, low-fi e slow-core – aí temos as Pega Monstro, em álbum homónimo, com a atitude punk o suficiente. Inovador e refrescante.

6. António Zambujo: “Quinto”. Outro genuíno representante de Portugal, também com bases no fado, mas já muito mais do que isso. A sua qualidade consolida-se neste quinto disco.

5. Diabo na Cruz: “Roque Popular”. Segundo projeto de Jorge Cruz, onde nos apresenta uma excelente fusão entre rock e folk, com base nas tradições portuguesas, respingadíssima de toques contemporâneos. Uma nacionalista mistura de rural e urbano.

4. Capicua: “Capicua”. Com o apoio de Sam The Kid, temos também agora uma boa MC feminina, representando o que de melhor se faz no hip-hop contemporâneo em Portugal. Uma voz do Porto, do Povo e com Coração.

3. Norberto Lobo: “Mel Azul”. Neste seu terceiro álbum, Norberto Lobo demonstra novamente que o experimentalismo é uma das mais poderosas ferramentas poéticas que a música pode utilizar, livre e descomprometida, mas com uma suavidade improvisada, embora muito trabalhada. Os seus solos de guitarra são uma delícia inspiradora e de introspeção, nunca monótonos, com um dedilhar que se imagina intenso. Não conhecia. Agora adoro.

2. Orelha Negra: "Orelha Negra". Original e necessário coletivo português, com destaque para Sam The Kid e DJ Cruzfader, trouxe-nos um groove bem desejado. Em bonitas homenagens ao hip-hop e à cultura urbana em geral, tornam a vida mais sofrível e certamente mais musical. Ficou em segundo lugar, mas certamente no primeiro de muitos amantes da música.

1. Black Bombaim: "Titans". Para destronar o álbum do Orelha Negra, só mesmo o fantástico trabalho dos Black Bombaim. Este trio de Barcelos produz um som universal, com um rock psicadélico, numa atmosfera intensa, mas com tempo para introspeção. Faz lembrar e pensar no que de melhor se faz nesta área, estando inclusive convidados para atuarem no Roadburn, o principal festival do género no mundo (Holanda). Belíssima surpresa.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Au Revoir Simone - Move in Spectrums (2013)

Depois de algum tempo sem editar, as Au Revoir Simone regressaram aos estúdios em 2013 para gravarem "Move in Spectrums", pela Moshi Moshi. É sem dúvida o seu trabalho mais sofisticado e completo, com um som que nos preenche todos os segundos do disco.

Este trio de vocalistas / pianistas, que usam quer teclados vintage ou mais contemporâneos, entrelaçam-se brilhantemente, sempre com destaque para as vozes, e sem esquecer a batida tipo 80's...

Das suas vozes vem uma melancolia, que nos amolece a alma, dando origem a estados pensativos e ternos, tornando-se no fim uma experiência enriquecedora.

No entanto, esse peso, nas vozes de Erika Forster, Annie Hart e Heather D'Angelo (formadas em 2003), pode por vezes ser fantasmagórico, embora arejado, leve, e com a plena sensação de que nos estão a transmitir algo muito pessoal.

É um dream pop de coração eletrónico.



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Na Toca da Catarina...

A Toca do Lobo (2015)


Neste último filme da realizadora portuguesa Catarina Mourão, a própria faz uma visita à sua família, aos segredos que todas as famílias contêm... Com base nuns antigos filmes de 9.5 mm, a realizadora reencontra a mãe e um distante e um praticamente desconhecido avô, o escritor Tomás de Figueiredo.

"Entre o passado e o presente", como diz Catarina, vai tentar dar sentido ao que vai descobrindo, com a ajuda da mãe, praticamente co-protagonista do filme, resolvendo ligações e memórias familiares.

Na sua antiga casa existe um quarto fechado à chave, que vai ser explorado pela câmara da realizadora, dando ainda mais ênfase à verdadeira temática por detrás deste filme: a nossa intimidade.

Teve estreia mundial no Festival Internacional de Roterdão (de grande prestígio internacional), assim como ganhou o Prémio do Público para Melhor Longa no IndieLisboa 2015, e foi selecionada para o Doc's Kingdom 2015.

Foi um dos filmes mais "sensíveis e pessoais" que vi este ano, de uma realizadora que se tem afirmado como uma das mais delicadas do cinema português, sendo de destacar os filmes "Pelas Sombras" (2010), "À Flor da Pele" (2006) ou "A Dama de Chandor" (1998).

Estudou Música, Direito e Cinema (Bristol University), e em 1998 foi uma das fundadoras da APORDOC (Associação pelo Documentário), e começou a dar aulas de Cinema e Documentário em 2000. No mesmo ano, com a realizadora Catarina Alves Costa, funda a Laranja Azul, uma produtora independente de Documentário e Artes Visuais.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Tristes Trópicos...

Claude Lévi-Strauss - Tristes Trópicos (1955)

É o mais reconhecido ensaio de Claude Lévi-Strauss, um dos mais importantes filósofos e antropólogos franceses, escrito sob a forma de uma narrativa etnográfica romanceada, e com excertos sobre várias sociedades indígenas.

É acima de tudo uma memória das suas viagens e trabalhos de cariz antropológico, com destaque para o tempo passado no Brasil, embora se cruzem várias áreas do pensamento e comportamento humano, como a sociologia, a geografia ou mesmo a música e a literatura.

Tornou-se um clássico da etnologia mundial, mas também uma obra universal, abordando a crise do processo civilizacional da modernidade (1955), sendo mesmo considerado um dos 100 livros do século pelo jornal "Le Monde".

Lévi-Strauss é considerado o pai da antropologia estrutural (que tanto me assustou no início da minha licenciatura...), e um dos grandes intelectuais do século XX. Professor universitário e catedrático em várias instituições, realizou também vários trabalhos de campo, que deram origem a uma extensa obra, reconhecida internacionalmente.

Aproveito para deixar duas citações suas conhecidas:

1.- "O antropólogo é o astrónomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador."

2.- "Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".

Muito Bom.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Pelo Tempo: "Os Sons de 2012 – Internacional" (2013-01-08)

Nada mais previsível do que cliché repetido… mas não consigo evitar de partilhar esta pesquisa de fim-de-ano que realizo sistemicamente em todos os Dezembros. Assim, lá fui pesquisando nas últimas semanas as habituais revistas de referência musical, entanto abranger a maior diversidade possível, em edições norte-americanas, europeias e portuguesas.

Como as informações, embora breves e amadoras, são muitas, tenho de dividir o texto em dois artigos, nomeadamente às listas internacional e nacional. Também não custa referir que se as listas fossem baseadas nos tops de vendas, teríamos aqui nomes como Rhianna, Taylor Swift ou Tony Carreira, todos grandes músicos e de carreiras populares imensas – mas o que se procura é apresentar o que de melhor a nível musical se produziu, segundo os críticos da especialidade.

As revistas consultadas para a cena internacional foram a New Music Express, Rolling Stone, Spin, UNCUT, Paste Magazine e a Magic RPM, abrangendo bastantes áreas e estilos musicais. Aliás, torna-se esta uma excelente forma de descobrir novos sons, pelo menos para mim… que resultou nesta lista:

10. Alt-J: “An Awesome Wave”. Fresco trabalho destes jovens ingleses, com o seu primeiro álbum de estúdio. Singularmente divertido e acessível.

9. Grimes: “Visions”. Trabalho da experimentalista canadiana, complexo, mas muito bonito e provocante q.b., recheado de uma duvidosa estética futurista.

8. Bob Dylan: “Tempest”. Um regresso é um regresso, e Bob Dylan mantém a sua linguagem, embora, como o título indica, algo mais tempestuoso.

7. Jack White: “Blunderbuss”. Primeiro trabalho a solo do vocalista dos White Stripes, muito bem recebido pela crítica e pelo público, também se mantém fiel ao seu rock sentido, emotivo e singelo.

6. Grizzly Bear: “Shields”. Quarteto indie norte-americano, lançam o seu quarto álbum, mais complexo e rico, com um pop-rock introspetivo, mas não estático.

5. Japandroids: “Celebration Rock”. Está na moda o punk com toques de rock clássico, muito bem executado aqui por este duo canadiano. Enérgico e estimulante.

4. Fiona Apple: “The Idler Wheel Is Wiser…”. Outro regresso, da aclamada artista “alternativa” norte-americana, já nomeada para Grammy com este disco. Apenas com 4 álbuns de estúdio, esta poetisa da música nunca deixa de encantar.

3. Tame Impala: “Lonerism”. Segundo álbum destes psicadélicos australianos, de uma sonoridade pop lembrando os anos 60 e 70. Obrigado Kevin Parker.

2. Kendrick Lamar: “good kid, m.A.A.d city”. Ao ritmo de uma autobiografia, Lamar vai-nos contando as peripécias da sua vida em Compton (Califórnia), numa fascinante narrativa em hip-hop suave e lírico, onde as rimas criam uma atmosfera entre o real e o onírico, onde se incluem pequenos trechos reais de conversas e histórias da sua vida. Disco vital de 2012!

1. Frank Ocean: “Channel Orange”. Este é o disco do ano, sem dúvida o mais referido nas leituras realizadas, apanhando a importante boleia de Jay-Z e Kanye West, comprovando que o som hip-hop e soul está de facto na moda, onde criando um bonito e sentido álbum, atinge também níveis muito interessantes de vendas, como Kendrick Lamar, aliás. Apresenta-nos uma mistura ideal: a sensibilidade de um cantautor recheado de poética, com a afetividade do soul – objetivo para onde os últimos anos de experimentalismo do hip-hop vinham encaminhando… Elegante, inteligente, lírico e sofisticado.

Junta-se assim aos álbuns de 2010 (Kanye West: “My Beautiful Dark Twisted Fantasy) e 2011 (PJ Harvey: “Let England Shake”). No entanto são ainda de referir os trabalhos de Bruce Springstenn, dos Chromatics, o regresso de Bill Fay e o fantástico álbum dos Swans. A título pessoal, destacaria “Bloom”, dos Beach House, assim como o disco de estreia dos açorianos October Flight, já com visibilidade nacional.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

DJ Shadow - O Pai do Sampling

DJ Shadow - Endtroducing..... (1996)

Este foi o primeiro álbum de DJ Shadow, e como muitos dos primeiros trabalhos dos grandes génios, é fantástico, e talvez o mais marcante da sua carreira e de uma nova área que se passou a existir no panorama discográfico.

Marcou uma época, e serviu de farol para muitos jovens que queriam mais da música, tendo sido o primeiro disco criado inteiramente a partir de samples de outros álbuns, automaticamente aclamado pela crítica especializada, e ainda com a curiosidade de ter sido integrado no Guiness Book of Records (em 2001).

A base é hip-hop, mas com os cortes e misturas efetuadas, criou um disco profundo, tenso e intrigante, recheado de texturas e estilos musicais, tendo para isso contribuído os misteriosos e obscuros discos de vinil que descobria (dizem ter uma coleção de mais de 60 mil discos de vinil...).

DJ Shadow (Josh Davis), é originário de San Jose, Califórnia, e começou como DJ na universidade e na rádio comunitária, sempre numa perspetiva experimental do hip-hop, sendo ainda referenciado como um dos criadores do trip-hop (título que rejeita...). Tem vários discos editados e um interessante trabalho em conjunto com outro visionário, DJ Cut Chemist, este mais de influência funk, mas também na área das mixtapes e experimentalismo.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Cucurrucucú"

Hable con ella (2002)

Filme escrito e realizado por Pedro Amodóvar, com um elenco de luxo, aborda a vida de dois homens que desenvolvem uma estranha amizade, pois ambos tomam conta das suas mulheres em coma. As temáticas que se destacam abordam claramente a dificuldade de comunicação entre géneros, a solidão, a intimidade, e como sempre, o poder do amor e da sua persistência.

O filme teve grande sucesso, quer na crítica, em festivais e na bilheteira, ganhando inclusive o Óscar de melhor argumento (e nomeação para melhor realizador), o BAFTA para melhor filme estrangeiro e ainda um Globo de Ouro, entre muitos outros.

Para nossa sorte, existe ainda uma cereja (no topo do bolo): a banda sonora! Da responsabilidade do regular colaborador de Almodóval, Alberto Iglesias, temos uma sensível, pesada e triste banda sonora, com grande predominância da viola acústica e violino, e sendo o grande destaque "Cucurrucucú Paloma", tema brilhantemente executado por Caetano Veloso.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Pelo Tempo: "A Força do Cinema Português nos Açores" (2012-12-15)

Nos passados dias 3 e 4 de Dezembro chegou ao fim o ciclo de cinema contemporâneo português “Amostra-me Cinema Português”, organizado pela Associação Cultural Burra de Milho, onde ao longo de todo o ano de 2012, se procedeu à exibição de um filme por mês, sempre a uma quarta-feira, no Pequeno Auditório do CCCAH.
A ideia do projeto nasceu da falta de visibilidade que estes filmes sofrem na região, e em particular na ilha Terceira, pois não conseguem estrear em salas de grandes distribuidoras, sendo um tipo de filme que podemos considerar de “autor”, logo menos comercial e dirigido para os sucessos de bilheteira e rentabilidade.
O principal reflexo deste ciclo foi o feedback positivo por parte do público, sendo que a maioria ficou a conhecer os novos grandes filmes portugueses (de 2010 a 2012), e algumas pessoas descobriram o cinema de grande qualidade, criatividade e poética visual que se faz no nosso país, tão em voga atualmente por todo o mundo.
Importante também foi o esforço de trazer à Terceira o maior número de realizadores dos filmes exibidos, como Graça Castanheira, Sérgio Tréfaut e Gonçalo Tocha, entre Fevereiro e Dezembro de 2012, que estiveram em conversa com o público presente, antes e depois da exibição dos filmes.
Num cinema mais preocupado com o “espetador” do que com o “público”, é de realçar o número de bilhetes vendidos, estando a maioria das sessões com uma audiência muito considerável para o tipo de cinematografia, o que demonstra o conhecimento e interesse cinéfilo que ainda existe na ilha.
Existiram momentos altos durante o evento, podendo-se destacar a estreia do filme de Gonçalo Tocha, em parceria com o Instituto Açoriano de Cultura, esgotando o CCCAH e o Auditório do Ramo Grande, em noites consecutivas, com o filme sobre o Corvo, “É na Terra, não é na Lua”, ou a exibição do filme sobre José Saramago, de Miguel Gonçalves Mendes, perto da data da sua morte, e finalmente, a estreia regional de “Deste Lado da Ressureição”, de Joaquim Sapinho.
Na sessão dupla de encerramento referida (3 e 4 de Dezembro), foi também exibido “Um Filme Português”, documentário sobre o cinema atual nacional, em jeito de súmula do que foi exibido ao longo do ano, com a presença de um dos realizadores, Jorge Jácome, encerrando-se a noite com uma “conversa” sobre essa atualidade, a que se juntou Vítor Marques, do Cine Clube 9500 (Ponta Delgada).
Este projeto teve de facto um valor significativo no enriquecimento das pessoas que por lá passaram, contribuindo para o desenvolvimento social da ilha, felizmente agraciado por uma interessante quantidade de apoios recebidos, desde a Direção Regional da Juventude, à própria Culturangra/CMAH, RTP-Açores, NewCopy e ViaOceânica.
Terminando então em grande esta mostra, a estreia do mais recente filme de Joaquim Sapinho foi uma sessão deslumbrante. Este reconhecido realizador português (nascido no Sabugal, em 1965), oferece-nos uma verdadeira pérola cinematográfica, onde “sofremos de prazer” com as interrogações e angústias da vida, na eterna busca pela capacidade de amar por parte da nossa humanidade.
Depois de filmes como “Corte de Cabelo” (1995), “A Mulher Polícia” (2003) e “Diários da Bósnia” (2006), o seu grande projeto de trabalho foi este filme, em produção há cerca de 10 anos, atingindo desde 2011 um reconhecimento internacional merecido.
Como refere Laura Quinteiro Brasil, na folha de sala que acompanhou a sessão, trata-se de “um filme sobre a procura do próprio eu, é um filme sobre a necessidade de renascer (…) este filme é este e o outro lado da ressurreição”.
Para 2013 ficou a promessa por parte da organização de desenvolver um projeto semelhante, mas centrado no cinema realizado e produzidos nos Açores, ainda em fase de recolha de apoios financeiros e logísticos, condição essencial à sua realização.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

New Foxygen For Music


Foxygen - We Are The 21st Century Ambassadors of Peace and Magic (2013)


Para todos os efeitos este é o primeiro disco de longa duração editado pelos Foxygen (dois jovens amigos de Los Angeles), no que pode ser considerado um duo de rock experimental. Aclamado pela crítica, acabou por criar um certo movimento de culto, mas com base na criatividade e coerência das suas músicas, e nada mais.

O som é nitidamente neo-psicadélico, ou seja, baseado na música psicadélica dos anos 60 e 70, talvez na sua vertente mais rock, como os Beatles ou mesmo os Beach Boys... parece foleiro não é? Não, é a releitura atual mais interessante - quando bem feita, como é este o caso.

Pessoalmente fazem-me lembrar a cena mais calma dos Rolling Stones, com um cheirinho a Tame Impala... Muito Bom!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Antropologia e as Questões de Género...

Margaret Mead - Sexo e Temperamento (1935)


Obra seminal de Margaret Mead, de 1935, onde se apresentam os estudos sobre três tribos da Nova Guiné, desde a sua infância à idade adulta, no que diz respeito à sua intimidade. 

As três tribos, bem diferentes entre si (Arapesh, Mundugumor e Tchambuli) ajudam a autora a expor a sua teoria, onde argumenta que as diferenças entre géneros (homem e mulher) não se baseiam em questões sexuais fundamentais, mas sim em condicionantes culturais de diferentes sociedades, ditando posteriormente a base dos estudos que surgiriam sobre a questão de género.

Faleceu em 1978, e durante os anos 60 e 70 tornou-se uma figura conhecida dos Estados Unidos por surgir recorrentemente na televisão, muitas vezes em questões relacionadas com o género.

Um facto curioso, mas de alguma relevância histórica, é que este trabalho de Mead, católica anglicana, ajudou a moldar a revolução sexual dos anos 60, e mesmo em alguns contextos de maior conservadorismo, típico do estilo de vida religioso das sociedade ditas ocidentais da época.

Antropologia em ação, ao serviço da humanidade e da civilização...

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pelo Tempo: "Jeff Wall – Uma Rajada Intelectual" (2011-08-07)

 

Tento aproveitar esta oportunidade para abordar temas obviamente do meu interesse, como arte, cultura e comunicação em geral, com alguns laivos à sociedade e à política…
Acho importante a presença destes temas no dia a dia das pessoas, sendo mesmo minha convicção que a arte é um dos principais impulsionadores de um verdadeiro desenvolvimento social sustentável, equilibrado e civilizado.
Assim, e numa perspetiva local, tento quando possível, que o teor deste espaço seja regional ou nacional… que não é o caso de hoje.
Há muito que tenho desejo de escrever sobre Jeff Wall, mesmo sendo difícil definir, mas deve ser o meu fotógrafo preferido. Tenho outros, nacionais e internacionais, mas este marcou-me particularmente, talvez por tenha sido através das suas imagens que comecei a aprender sobre fotografia contemporânea.
Nascido em 1946 no Canadá, desde os anos 60 e 70 que se tornou uma das principais figuras da cena artística de Vancouver, cuja escola ajudou a definir através de vários trabalhos escritos de relativa importância. Está sempre muito presente esta cidade no seu trabalho, misturando a sua beleza natural, e decadência urbana e mesmo moral.
Estudou na Universidade de British Columbia e no Courtauld Institute, e depois deu aulas em várias universidades e institutos, assim como publicou outros importantes ensaios sobre fotografia e arte sobre com vários artistas de renome internacional. Entre os vários prémios que já recebeu, destaque para o Hasselblad Award, reconhecido prémio de uma academia sueca em fotografia.
Enquanto estudante, o seu trabalho foi bastante experimental e conceptual, como se deseja num jovem, mas só em 1977 produziu o que se pode definir como as suas primeiras “foto transparências retro iluminadas”, pelo que ficou conhecido mundialmente, geralmente encenadas e referindo-se a problemas da história da arte e filosofia.
Embora seja praticamente impossível referir apenas alguns trabalhos de Jeff Wall, gostaria de destacar “Mimic” (1982), que desmonta o seu estilo cinematográfico: um casal branco e um indivíduo asiático, ambos de frente para a câmara, num ambiente norte-americano suburbano, onde o homem branco, num gesto de troça e racista, levanta com o dedo o canto superior do seu olho, simulando os olhos orientais. No que parece uma fotografia casual, muito trabalho e técnicos foram utilizados, para conseguir naquele momento representar o que Wall desejava, ou seja, aquela tensão social implícita, que afinal se baseava num gesto que o artista tinha mesmo presenciado.
Uma das suas imagens mais conhecidas deve-se ao facto de a banda norte-americana Sonic Youth a ter escolhido para o álbum “The Destroyed Room: B-sides and rarities”, de 2006, uma importante coletânea para os seus fãs. A fotografia, de 1978, deu mesmo origem ao nome do álbum, de extrema importância para o futuro trabalho de Jeff Wall, como que um manifesto contextualizado de revolta e agressão à vida doméstica, ao bom estilo punk académico dos Sonic Youth.
Jeff Wall pretende aperfeiçoar a “arte de não fotografar”, ou seja, procurar as imagens que se escondem numa cidade, e depois a partir delas construir momentos ficcionados para capturar novamente em câmara. E isto é literalmente uma mistura de performance e realidade, em que a fotografia de Jeff Wall se move.
As suas fotografias são cuidadosamente pensadas e ensaiadas, partilhando técnicas e pensamentos do cinema e da pintura, criando um conjunto de imagens que derivam dessas duas técnicas.
Outro exemplo, a finalizar, e uma das minhas peças de referência, é o trabalho “A Sudden Gust of Wind (after Hokusai)”, de 1993, atualmente parte integrante da Tate Gallery. Trata-se de uma transparência das já referidas, com 2,2 x 3,3 metros. Grande e luminosa. É baseada numa xilogravura do artista japonês Katsushika Hokusai, de 1831, que representa a época dos tufões e retrata um grupo de viajantes lutando contra os fortes ventos, agarrando-se aos seus chapéus e haveres.
Jeff Wall transplantou essa imagem para a sua Vancouver, e demonstra um grupo de personagens apanhados desprevenidos por uma súbita rajada, levando um chapéu e muitos papéis pelo ar. O trabalho foi construído a partir de 50 imagens, tiradas ao longo do ano, que depois foram digitalizadas e processadas, quase como na produção de um filme, mas trata-se “apenas” de uma fotografia… isto é Jeff Wall.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ganhou o Birdman!

Birdman (2014)

Eu nem queria dizer muito sobre o filme, mas é difícil. Esta história de um atormentado anti-herói apresentado por Michael Keaton (brilhante!), antigo ator de cinema e ícone cultural, que faz uma derradeira viagem na busca de relançar a sua carreira.

O filme foi timidamente surgindo em festivais, lançado a medo nos EUA, e gradualmente ocupando o seu espaço, conquistando os principais prémios​ dos Globos de Ouro, dos Screen Actors Guild Awards e presenças em outros festivais de renome na Europa.

Acabou por culminar na arrecadação dos Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Fotografia.

Se emocionalmente nos arrasta numa maravilhosa história, tecnicamente é um assombro, pois possui loucos e continuados planos, sem edição, que o realizador (Iñarritu) chamou de "realidade incontornável".

E depois o som. Que som - uma banda sonora composta inteiramente de solos de bateria e algumas peças clássicas (como Rachmaninoff ou Tchaikovsky), transmitindo uma cadência e ritmo ideais para o acompanhamento do percurso das personagens e da história.

Obrigado.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Rock do Bom!

​Eagles of Death Metal - Death By Sexy (2006)

Este é o segundo disco dos Eagles of Death Metal - cujo nome assusta mais do que o seu som depois explora..., e foi editado em 2006. Demorou a tornar-se conhecido como um todo, e ajudou o facto de uma das canções ser usada num anúncio para a Nike em 2008 (com Cristiano Ronaldo e companhia), assim como está presente no jogo de computador "Need for Spreed: Carbon" - portanto, intensidade pura!

Rock despretensioso e sentido, de cariz atual e contemporâneo, teve uma excelente reação do público e da crítica, valendo também muito pelo seu espírito satírico e irónico, típico dos seus membros, e fazendo por vezes lembrar os míticos Electric Six.

A parte fixa da banda (os outros vão rodando...) é composta por Jesse Hughes e Josh Homme (líder dos Queens of the Stone Age e antigo membro dos Kyuss) - diversão total!

Puro, bom e divertido rock!

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pelo Tempo: "A Importância das Políticas Culturais" (2011-08-05)

Este conceito de políticas culturais, muito em voga hoje em dia, e felizmente a merecer o devido respeito, carece de uma definição consensual, como habitual no mundo das artes e cultura, devido não só devido ao elevado teor subjetivo destas questões, mas também por algumas divergências académicas.
Também de país para país varia essa definição, onde por exemplo, na Alemanha a cultura está ligada à educação e ao desporto, enquanto em Itália gere o património e o teatro lírico. Mesmo em Portugal a cultura tem estado sob a tutela de vários ministérios.
Historicamente o próprio conceito também já passou por muito, desde que no início do século XX cumpria um papel reivindicativo, via revolução francesa (Cultura contra o Estado), depois muito ligado à educação e à alfabetização, e mais recentemente, nos anos 60, com o início da democratização das práticas culturais, impulsionado pela França, e em particular pelo seu ministro da cultura de referência, Andre Malraux.
Numa perspetiva simplista poderíamos definir políticas culturais como a realização do poder público de operações, princípios, procedimentos e orçamentos, com vista a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos através de atividades culturais.
Mas são também desenvolvidas atualmente por organizações não-governamentais e empresas privadas, saindo da exclusividade da administração pública, ou inclusive atuando em conjunto, resultado de um novo discurso resultante das várias transformações culturais recentes.
Tem duas perspetivas basilares: uma de intenção ampla e genérica, voltada para os valores e património locais; outra de democratização cultural, proporcionando á população o acesso a bens culturais considerados de “elite” ou de “alta cultura”, termos algo perigosos.
O ideal é que se desenhe uma estratégia onde o público seja um participante ativo, dinamizando a cultural local, sem desconsiderar a erudita, centrando-se o foco destas ações na participação e criação dos processos culturais.
Na perspetiva mais académica deste campo das políticas culturais, e na maioria dos estudos em Portugal sobre cultura, seja de abordagem sociológica, histórica ou antropológica, é inevitável a referência à obra “Políticas Culturais em Portugal”, editado em 1998 pelo Observatório das Atividades Culturais, com a coordenação de Maria de Lourdes Lima dos Santos e com a participação de muitos dos especialistas em estudos de cultura no nosso país.
É um trabalho baseado numa iniciativa do Conselho da Europa sobre a avaliação das políticas culturais nacionais, compilou e organizou muita informação sobre legislação e estatística da área cultural, tornando-se o ponto de partida para muitos outros estudos.
Com base nas indicações dadas pelo Conselho da Europa, utilizaram vários instrumentos e indicadores com vista a compilar todos os dados necessários, nomeadamente as linhas diretrizes para a avaliação que tinha sido feita em França e a determinação dos conselhos metodológicos: identificação dos objetivos das políticas culturais, análise dos meios para os atingir e o estudo dos resultados obtidos.
São necessários dois pressupostos para que possa existir uma política cultural: primeiro tem que existir uma convergência e coerência entre o papel que o estado reserva à cultura; e segundo, tem de haver uma visão programada para o futuro, mesmo sendo uma área de difícil definição.
Se durante o Estado Novo o objetivo das políticas culturais era a hegemonia ideológica e cultural do regime, com uma grande tónica de nacionalismo e historicismo, após o 25 de Abril a cultura renasce e começam a surgir novas prioridades.
De uma maneira geral, os vários governos democráticos, com algumas alterações, mantêm as mesas orientações, nomeadamente a democratização, descentralização e apoio à criação.
Nos anos 90 organizaram-se alguns eventos com a intenção de promover a cultura, mas pouco estruturantes, com o objetivo de transmitir uma imagem de Portugal moderno, mas sem um fio condutor.
Foi com a vitória do Partido Socialista em 1995, e com “A Cultura no Coração da Política” de Manuel Maria Carrilho, que a cultura passou a ter verdadeiro estatuto de estado em Portugal, sendo-lhe atribuída importância ministerial (anteriormente secretaria de estado) e fazendo parte da visão para o futuro do país.
Esta coerência e consistência, mantida pelos ministros seguintes (Sasportes e Santos Silva), criou uma estrutura governamental que não mais abdicaria do seu poder, baseada em cinco grandes princípios: democratização, descentralização, internacionalização, profissionalização e reestruturação.
Agora, com o novo governo de Passos Coelho, vemos o papel da cultura reduzido a uma Secretaria de Estado, “devido às circunstâncias”, poderão dizer os mais pragmáticos, mas terá certamente influência no papel da cultura na vida portuguesa.
Atualmente reclama-se a importância das políticas culturais, nacionais, regionais e locais, por todos os agentes culturais intervenientes, públicos e privados, sendo ponto aceite que constituem uma importante parte do desenvolvimento social de um povo.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Filme: "Ramo Grande" (2015)

Ramo Grande (2015)

A Associação Cultural Burra de Milho informa que se encontra disponível, no endereçowww.ramogrande.com, o documentário intitulado RAMO GRANDE, produzido por esta associação no âmbito de uma candidatura ao ProRural, Grater – Associação de Desenvolvimento Regional.

Inerente à cultura e existência da ilha Terceira, o "Ramo Grande" continua a ser um conceito difuso e pouco conhecido quer interna quer externamente. Seja na sua componente arquitetónica, na componente de gado de pastagem, ou como zona delimitada geograficamente no concelho da Praia da Vitória, o certo é que a definição de "Ramo Grande" é ainda incompleta e geradora de indefinições.
RAMO GRANDE pretende de alguma forma lançar luz sobre a questão da natureza da designação “Ramo Grande” da ilha Terceira. É um documentário de cariz pedagógico, que pretende abordar as várias vertentes da origem da designação “Ramo Grande”: desde a geografia à geologia, da cultura à religiosidade, da história à arquitetura, o espetador percorre as diversas particularidades e explicações por parte de investigadores e personalidades das áreas em questão.

O trabalho encontra-se disponível gratuitamente no sítio www.ramogrande.com sendo que serão distribuídos por todas as escolas das ilhas Terceira e Graciosa exemplares físicos do documentário (DVD) para acervo bibliográfico das escolas e para uso como material didático nas respetivas aulas.

O Documentário foi realizado entre os anos de 2014 e 2015, contando com as participações de: Professor Artur Machado (Genética - Universidade dos Açores), Professor Avelino de Meneses (História – Universidade dos Açores); Professor Félix Rodrigues (Etnografia – Universidade dos Açores); Francisco Cota Rodrigues (Geologia – Universidade dos Açores); Dr. Jorge Paulus Bruno (Arquitetura – Coordenador do Inventário do Património Imóvel dos Açores); Padre Júlio Rocha (Religiosidade) e Valter Peres (Cultura).

A banda sonora do documentário é da responsabilidade dos Myrica Faya.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

Supernada - O Culto do Pós-Culto

Supernada - Nada É Possível (2012)


A ter um título, este desabafo poderia ser "O Culto do Pós-Culto", pois tal foi a expetativa que os Supernada criaram para os fãs dos Ornatos Violeta.

Este quinteto é liderado por Manuel Cruz, o enigmático, Miguel Ramos no baixo, Ruca na guitarra, Eurico Amorim nas teclas e Francisco Fonseca na bateria.

Surgem em 2002, na mesma altura que os Pluto, outra prole dos Ornatos, onde participam Manuel Cruz e Rui Lacerda.

Mas só lançaram o álbum em 2012, tendo no entanto algumas atuações ao vivo de destaque, que também entraram para a história do rock português, considerados uma natural evolução dos Ornatos Violeta.

É de celebrar.É o bom rock nacional.


terça-feira, 21 de abril de 2015

"Pitbull: Terrier!!!"

Crna Macka, Beli Macor (​​Gato Preto, Gato Branco, 1998)

Com base num romance de um autor russo dos anos 30, este "Gato Preto, Gato Branco" confirma a catapulta do estilo alternativo, divertido e mordaz de Emir Kusturica, contando uma aparentemente simples história de um grupo de ciganos.

A história é rocambolesca, e os personagens, míticos: Matko, o cigano que vive de negócios escuros com os russos; Dadan e o seu harém; e o amor entre Zare e Ida...

Nesta comunidade temos avós que se julgavam mortos, uma mulher a vender a filha, um burro, um casamento forçado e uma fanfarra, entre muitos outros pormenores deliciosos - mas no fim, o amor prevalece!

A cereja no topo do bolo, e que muito ajudou a popularidade do filme, é a fantástica e marcante banda sonora, fazendo com que a No Smoking Orchestra e toda esta sonoridade baseada em instrumentos de sopro se tornasse conhecida do grande público, assim como se tornasse viral...

Destaque para as músicas "Pitbull Terrier" e "Long Vehicle", no contexto do próprio filme e das referidas personagens, mas acima de tudo um merecido e feliz reconhecimento da música popular dos Balcãs - única e divertida.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Magnetismo Histórico

​​The Magnetic Fields - Love at the Bottom of the Sea (2012)​


Décimo álbum dos míticos The Magnetic Fields, que ocupam um lugar marcante na história da música pop dos anos 90, editado em 2012. Desde 1999 que não gravavam nenhum trabalho, desde o também histórico 69 Love Songs (um álbum triplo, com 69 canções e de cariz conceptual).

Bom para matar saudades, mas como dizia um tio que conheço: "já fizeste melhor..."

segunda-feira, 16 de março de 2015

Pelo Tempo: "Sempre a Nouvelle Vague" (2011-04)

Tivemos a oportunidade de assistir a uma mostra de cinema da realizadora francesa Agnès Varda, no Teatro Angrense, numa iniciativa da Associação Cultural Burra de Milho, com o apoio do Instituto Francês de Portugal, e numa parceria com o Cine Clube de Ponta Delgada e Culturangra, num claro esforço de divulgação do cinema de qualidade, assim como de criar oportunidades de exibição de filmes sem hipóteses de entrar no circuito comercial.
Foram cerca de 15 curtas-metragens de Agnès Varda, uma das mais importantes cineastas da atualidade, destacando-se da sua vasta produção Duas Horas da Vida de Uma Mulher (1962), um dos porta-estandartes da Nouvelle Vague do cinema francês. Desde então muito produziu e realizou, entre a ficção e o documentário, entre a curta e a longa-metragem.
Agnès Varda nasceu na Bélgica em 1928, mas cedo se mudou para França onde estudou Literatura e Psicologia na Sorbonne, e História de Arte no Louvre. Trabalhou como fotógrafa no Teatro Nacional Popular de Paris, assim como deu início a uma carreira como fotojornalista. Realiza o seu primeiro filme aos 26 anos, em 1954, La Pointe Curte, já com indícios precursores da Nouvelle Vague francesa.
Foi casada com o realizador francês Jacques Demy, falecido em 1990, e é mãe do ator Mathieu Demy e da costureira/estilista de cinema Rosalie Varda, ambos com carreiras de sucesso. Agnès Varda foi uma das cinco pessoas a estar presente no funeral de Jim Morrison no cemitério Père Lachaise, em Paris…
Intitulada por alguma imprensa especializada como a “Avó da Nouvelle Vague”, tem um trabalho muito conotado com questões políticas e sociais, como se poderá observar por algumas das curtas-metragens a exibir.
Destacou-se também em trabalhos de parceria com outros realizadores de renome, como a sua participação nos diálogos de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. Após a morte do seu marido, realizou um grande filme, em formato de tributo: Jacquot de Nantes (1991), que todos esperavam ser o seu último trabalho, pela sua idade e situação pessoal. Mas em 1995 regressa com Les Cent et Une Nuits, e desde então realizou, produziu e participou em mais de 10 filmes, com o destaque para o documentário Les Pláges d’Agnès, nomeado para vários prémios.
Rivalizando já com Manoel Oliveira, pela longa carreira, Agnès Varda é uma ensaísta do cinema, sendo principalmente as suas curtas-metragens momentos de pura intervenção social e filosófica.
Nas duas noites passaram pelo teatro cerca de 80 pessoas, número bastante significativo para sábado e domingo à noite, tendo em conta a pouca divulgação / expressão que este tipo de cinema tem na região. As opiniões foram divergentes, todos tiveram os seus filmes preferidos, mas o resultado global foi muito positivo, mesmo correndo o risco de ser cansativo assistir a vários filmes da mesma realizadora de seguida, com a mesma linguagem e dinâmica.
Ou talvez exista cada vez mais um público específico, que queira ter a oportunidade de assistir a cinema numa perspetiva artística e não somente de entretenimento, embora se possa conjugar estes dois fatores em muitas felizes ocasiões.
Destaca-se aqui o papel do Cine 9500 de Ponta Delgada e do Cineclube da Horta.
Aproveitando a boleia sobre a temática da Nouvelle Vague francesa, destaco ainda um filme de 2010, Os Dois da (Nova) Vaga, de Emmanuel Laurent, exibido recentemente pelo Cine Clube de Ponta Delgada.
Trata-se da história da amizade entre Jean-Luc Godard e François Truffaut, dois dos principais realizadores franceses de sempre. São muitos os filmes que realizaram e que marcaram a história do cinema, destacando-se Os 400 Golpes, de Truffaut e O Acossado de Godard.
Recorrendo a imagens de arquivo, a excertos dos filmes dos dois realizadores e folheando recortes de imprensa da época, o filme fala de uma década que transformou o mundo, podendo ser uma boa abordagem inicial a este movimento artístico do cinema francês, próprio da contestação dos anos sessenta. Inicialmente composto apenas por jovens realizadores sem grandes possibilidades financeiras, mas com uma vontade comum: transgredir as regras do cinema comercial.
Além dos dois nomes fundamentais já referidos, podemos ainda destacar Alain Resnais e Eric Rohmer, entre outros, e que tinham como principais características do seu trabalho a inflexibilidade com os conceitos narrativos da altura, apresentando uma montagem inesperada e original, onde geralmente não obedeciam à linearidade da própria narrativa.
Com o continuar dos anos, este extremismo foi-se diluindo, seguindo cada realizador o seu caminho, deixando um dos maiores legados da história do cinema, influenciando inclusive os realizadores da chama “Nova Hollywood”, como Robert Altman, Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese.
O cinema mudou com esta vaga, que agora se refresca com a “jovem” Agnès Varda.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"a burra edita" Punk em Livro

"Vida Suburbana", de Paulo Lemos (Burra de Milho, 2014)

A Associação Cultural Burra de Milho, através da sua colecção literária "a burra edita", apresentou no passado mês de Janeiro o livro "Vida Suburbana", da autoria do terceirense Paulo Lemos, contando com a presença do Vereador para a juventude de Angra do Heroísmo, Guido Teles e do autor.

Que segredos nos esconde o Punk em Portugal? 

É esta questão que Paulo Lemos se propõe a responder na sua obra de estreia, a primeira do género em Portugal. O livro aborda a subcultura Punk e explora os seus diversos campos artísticos e comunicacionais. 

Iniciando uma abordagem ao Punk internacional, passamos pelo seu universo português, terminando com o estudo de caso da banda Punk mais antiga de Portugal em actividade: os Mata-Ratos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma Vida. Um Vencedor?

Boyhood​ (2014)​

Magnífico projeto de Richard Linklater, que alcançou notoriedade e atenção por parte dos órgãos de comunicação social pelo facto de ter demorado 12 anos a filmar - mas sem esse "pequeno" pormenor, o filme não teria o poder que tem.

Produzido então entre 2002 e 2013, e com um orçamento muito modesto, acompanhamos o crescimento e passagem a adulto de um menino (Ellar Coltrane), e da sua vida familiar e social desde a infância até à entrada na universidade.

É poderoso acompanhar assim um menino, numa história terna, com dramas e momentos difíceis, mas com um sentimento de distância percorrido, de construção de uma vida, adpatando-se e sendo adaptada por ela.

Emocionante.

PS: Espero que ganhe o Óscar (ainda falta ver o "Birdman"...).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resta-nos Sempre a Música...

A pedido de muitos núcleos familiares, e algumas insistências institucionais, volto a partilhar a minha experiência com a música ao longo do ano que terminou, com cada vez menos tempo disponível e cada vez mais projetos a surgirem.
Sendo o quinto ano que opino sobre alguns projetos musicais internacionais e nacionais, já me apercebi que os jornalistas da especialidade têm a tendência de dizer que "2010 foi um grande ano" ou "2013 foi cheio de surpresas" – pois para 2014 o cenário é meio desmoralizador, afirmando alguns que foi um "ano morno" ou "sem grandes surpresas".
Não compreendo como, pois cada vez mais surgem novos artistas, tornando-se incomportável acompanhar todas as tendências e novidades, numa época de intenso desenvolvimento tecnológico em relação às artes e à criatividade...
Então: de acordo com as tabelas da crítica musical internacional, dois discos dominam o panorama, nomeadamente o rap alternativo em Run the Jewels 2 (resultando do encontro de El-P com Killer Mike) e Lost in the Dream dos The War on Drugs.
Outro destaque terá de ir obrigatoriamente para o álbum Syro, de Aphex Twin, que finalmente obtém o mérito generalizado e merecido a nível mundial, sendo um ídolo para todos os amantes da música eletrónica, principalmente da mais industrial e experimental. Não lançava um disco de originais desde 2001!
Acho que é justo destacar brevemente os álbuns It's Album Time de Todd Terje (uma deliciosa e inteligente eletrónica suave), o trabalho homónimo de St. Vincent, cada vez mais profunda e indelével, e ainda Our Love, dos agora extremamente dançáveis Caribou (mais eletrónica...).
Para rematar o cenário internacional, os meus preferidos: To Be Kind, dos Swan, que teve uma aceitação muito boa na crítica e nas tabelas finais do ano; e o inevitável disco do ano: Benji, dos maravilhosos Sun Kil Moon, liderados por Mark Kozelec. Trata-se de um disco com contornos mágicos, desde logo o título, retirado assumidamente do filme sobre um dos mais amados cachorros da história do cinema, e que nos leva numa mágica e serena viagem pelo mundo das letras e do folk contemporâneo.
Outra saborosa curiosidade, que nem o próprio músico (antigo líder dos míticos Red House Painters) sabe explicar, que é a relação com Portugal, pois a sua editora chama-se "Caldo Verde Records" e neste álbum é utilizada mais do que uma vez a guitarra portuguesa, tocada pelo próprio Kozelec...
Já vai longa a explanação auditiva, mas queria ainda referir os projetos Perfume Genius e Future Islands, e a minha última aquisição, Black Messiah por D'Angelo, apenas editado em dezembro e talvez ainda pouco divulgado e conhecido – mas magnífico! Hip-Hop, Soul e Funk de intervenção e introspeção...
A nível nacional vivemos o ano da Capicua, pois a rapper portuense saiu da sombra dos fãs do hip-hop para o reconhecimento generalizado – deliciosa! Impossível não referir também os trabalhos de Capitão Fausto (Pesar Sol), Dead Combo (A Bunch of Meninos) e Sensible Soccers (8).
E porque não uma secção regional? Aí teria de realçar os jovens Sara Cruz e Rubeshe Silva (DL-Jay), e ainda a organização do Festival Tremor, que tanta qualidade e inovação trouxeram a Ponta Delgada (nota: começar a pensar em fazer perninhas noutras ilhas...).

PS. Visto que quase 20 dias após o envio deste artigo de opinião, num espírito de partilha, para a imprensa escrita da Terceira, e nenhum interesse ter despoletado, decido obviamente a divulgação modesta via blogue. É assim.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pelo Tempo: "Mais Cultura. Mais Democracia." (2011-09)

Felizmente ao longo dos últimos anos, principalmente a partir dos anos 90, os governos e a sociedade tem vindo a olhar para a arte e cultura em geral com outros olhos, compreendendo o seu papel e importância para o desenvolvimento socioeconómico das comunidades modernas.
Passou a perceber-se e a aceitar que é uma área com regras próprias, com as suas condutas, as suas especificidades, levando a que as pessoas que nela estão envolvidas se vão tornando especialistas ou conhecedoras dessas suas características.
Existe um número cada vez maior de profissionais da cultura, que se formam, trabalham e aprendem diariamente com atividades que consideramos culturais. Desde os programadores culturais, aos responsáveis pela logística, passando pelos técnicos de som e luz, e aos artistas, evidentemente, representando um extenso grupo profissional, e que muito tem batalhado pelo seu reconhecimento legal.
E um dos aspetos mais importantes em toda a atividade em torno da arte e cultura, por parte dos artistas e restantes agentes, é a sua democratização, ou seja, torná-la acessível a todos, promovendo valores culturais humanistas e críticos.
E é com base na participação popular, da sociedade civil, que essa democratização tem de evoluir, pois se as grandes decisões relacionadas com as políticas culturais centrais são da responsabilidade dos governos (centrais e regionais), é sobre a esfera pública que recai a responsabilidade da iniciativa e criatividade em eventos, momentos e intervenções, com destaque óbvio para as associações culturais e cooperativas.
Quanto mais os eventos e os trabalhos artísticos se aproximarem das pessoas, quanto mais “fácil” for ao público conhecer e compreender os trabalhos apresentados, mais pensaremos e questionaremos os aspetos importantes da vida, originando uma discussão permanente tendo em vista uma melhoria das condições civilizacionais. Assim, quanto mais acesso à cultura, melhor democracia.

PS. Texto de 2011, com a sempre curiosa intemporalidade do assunto...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Que Linda Casa

Linda Martini - Casa Ocupada (2010)

Os Linda Martini são uns verdadeiros gigantes da música portuguesa, embora possam passar despercebidos à maioria da população. Juntos desde 2003, e a editarem desde 2006 (Mongol), revitalizaram o espaço do pós-rock em Portugal, criando uma vastíssima legião de fãs e conquistando a crítica e outros músicos nacionais, ganhando bastante espaço na rádio e ainda conseguindo a participação em alguns festivais de grandes dimensões, como as habituais queimas das fitas.

Em 2010 surge então "Casa Ocupada", o segundo disco de longa duração, colocando-os noutro patamar, quer de qualidade, quer de referência musical, arrecadando vários prémios, nomeações e acima de tudo variadíssimos elogios e referências por pessoas do meio musical e jornalístico.

Embora com uma identidade bem estabelecida, e com um patriotismo orgulhoso de destacar, são claros representantes de um conjunto de bandas de referência internacional, como os norte-americanos Mogwai, os ingleses Radiohead, ou os japoneses Mono.

A guitarra elétrica é rainha, rei e peão do seu som, podendo ser considerada a "guitarrada" a base do seu som, muito próprio e identificativo, mas que não se sobrepõe ao rock, por vezes pop, que caracterizam esta banda de "pós-rock português..."

Em 2013 editaram já o terceiro LP, "Turbo Lento", que teve uma grande receção por parte do público em geral, com salas cheias e atingindo os tops nacionais rapidamente, em discos e em serviços online.