quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Os dias custam (mesmo / nada) a passar...

Real Estate - Days (2011)

Outra banda recente norte-americana, numa onda Lo-Fi (tristes como cães, numa noite pesada, mas tudo se faz...), com um som contemporâneo, embora recheado de influências de várias décadas. Formados em 2008, apenas três anos depois atingem algum reconhecimento, precisamente com este álbum, e muito o devem à boa crítica na revista Pitchfork, referência da música independente e de autor nos EUA.
São melódicas canções à deriva, numa poética "low-profile", entrando no habitual problema deste tipo de bandas: se não ouvirmos bem as letras, apenas contamos com a emoção (bastante) e as músicas são todas muito parecidas.
No entanto, um bom disco.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pelo Tempo: "RTP/Açores – Serviço Público de Qualidade?" (2011-09-02)


Surgem naturalmente as reações às declarações e propostas do governo português em relação à RTP/Açores, tentando resolver os elevados custos com a diminuição da “janela” de transmissão, a palavra do momento.
Com transmissão desde 1975, é assumidamente um canal regional, e como o próprio slogan indica, “A Nossa Televisão”, contribuiu ao longo dos anos para o fortalecimento do sentimento autonómico e para a preservação de uma identidade açoriana, conceito constantemente em discussão.
Atualmente transmite 24 horas por dia, embora entre as 00h00 e as 08h00 retransmite o canal EuroNews, que agora se revelou um negócio danoso. Durante o dia tem o formato típico de um canal generalista, com programas de informação, infantojuvenis, ficção nacional e estrangeira, documentários, etc.
Segundo dados de 2003, mais de 35% da programação da RTP/Açores é produzida na região, seguida de programas oriundos da RTP2 e com apenas 3% vindos da RTP1. De realçar que 85% dessa produção regional é oriunda da ilha de São Miguel.
Não consigo compreender porque transmite ficção estrangeira, sem duvidar da sua qualidade, mas não tem cabimento, a não ser que existam ainda muitos lares que só recebam RTP/Açores e a RTP1. Por outro lado, é de destacar a importância na transmissão de vários eventos de cariz diversificado, desde os jogos da equipa de hóquei da Candelária a concertos do AngraJazz.
Serviço público de televisão não será dar ao público o que ele quer ver – para isso existem os canais privados, que aliás dependem desse mesmo fator, pois precisam de audiência, com vista a captarem publicidade.
Assim, num serviço público não deveria haver lugar para transmissões desportivas de forte apelo comercial, concursos, reality shows e ficção internacional (telenovelas incluídas). Por outro lado, deveria incluir ficção nacional, programas dirigidos às minorias, documentários, programas experimentais e com preocupações estéticas, alguma programação com cariz infantil e juvenil, cinema de autor e de qualidade (nacional e estrangeiro), assim como alguns programas de informação (reportagens, debates ou noticiários).
Não parece difícil de definir, assumindo-se que de facto é uma programação que não atrai públicos em massa, mas sim que se preocupa em acrescentar algo à vida das pessoas, com um cariz pedagógico e informativo, por oposição ao vulgar.
O que leva à questão da necessidade de uma discussão pública em torno destes temas, numa perspetiva mais participativa da nossa democracia. Esse será talvez o grande tema subjacente a toda esta discussão.
Deverá haver uma programação 24 horas por dia? Deverá haver transmissão de conteúdos estrangeiros, nomeadamente ficção? Deverão os centros de produção manter o mesmo número de funcionários ou poderá recorrer-se a outsourcing? Poderá uma fusão com a RTP/Madeira ser uma solução “atlântica”? Deverá estar em cima da mesa uma inclusão na RTP/Internacional, com visibilidade na televisão por cabo?
São questões que obviamente deveriam ser discutidas, ou tidas em conta, como já foi proposto, na Assembleia Regional. Assim sendo, temos então um custo de 12 milhões de euros anuais, que poderá certamente ser reduzido com melhor gestão a vários níveis. Por outro lado, temos que saber atribuir um “preço” ao que será um bom serviço público.
É sereno considerar que a RTP/Açores tem feito um razoável serviço público, com algumas exceções, falhas de gestão e erros estruturais. Sem dúvida que é mais serviço público do que a RTP1, embora menos que a RTP2, na minha ótica, o melhor exemplo de serviço público nacional.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

MOSTRA LABJOVEM 2012

Com a Mostra na ilha Terceira, terminou mais um périplo do Labjovem 2011/2012, uma iniciativa da Direção Regional da Juventude, organizado pela Associação Cultural Burra de Milho, que teve o seu início com a fase de concurso no primeiro ano, seguido da análise e escolha dos selecionados, e neste ano a mostra dos trabalhos por todas as nove ilhas dos Açores.

Segue abaixo pequeno resumo da inauguração da mostra na Terceira, na Academia de Juventude e das Artes da Ilha Terceira, com a música Pecado, por Verónica Silva, um dos projectos seleccionados desta última edição. Para além da atuação desta jovem concorrente, ainda foi possível contar com a actuação dos October Flight, outro dos projectos seleccionados.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Cozinhar é um estado de alma - Soul Kitchen

Soul Kitchen (2009)

Este bem humorado filme conta-nos a história de um restaurante alternativo grego na Alemanha dos nossos dias, onde após um período de crise, com a namorada longe, o dono do local entra em desespero. De um momento para o outro, num ambiente de anarquia, boa comida e música, o restaurante torna-se um local de culto...
Realizado pelo turco-alemão Fatih Akin, é baseado numa história verídica, de uma taverna que o próprio realizador frequentava, e estreou no Festival de Veneza, completando um circuito de presenças de outros filmes deste jovem realizador em festivais e prémios, como em Berlim, Cannes ou o European Film Awards.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Cão dos Ornatos!

Ornatos Violeta - Cão! (1997)

Neste momento parece que tudo já foi dito sobre os Ornatos Violeta, a viverem novo momento de fama. Este foi o seu primeiro álbum, de 1997, tendo vendido cerca de três mil cópias, e marcando o início do mito.
Origniários do Porto, e compostos pelos atualmente reconhecidos Manel Cruz (voz), Peixe (guitarra), Kinörm (bateria) e Elísio Donas (teclas), marcaram a cena alternativa da música portuguesa no fim dos anos 90. tendo apenas editado dois discos, separando-se em 2000.
Originaram outros projetos importantes e interessantes da atual música portuguesa, com destaque para os Pluto, Foge Foge Bandido e os Supernada, atualmente a apanhar a onda que restou dos concertos dos Coliseus.
Marcou uma geração, e esperemos que continue a influenciar outras...

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pelo Tempo: "Ana Vieira - Um Muro de Abrigo" (2011-09-01)


Ao receber, via facebook, o convite para a exibição do filme “Ana Vieira: e o que não é visto”, pelo 9500 Cine Clube, reavivei a minha memória em relação ao magnífico trabalho da artista “açoriana” Ana Vieira.
Estreado este ano, e realizado por Jorge Silva Melo, o filme surge após a exposição “Muros de Abrigo”, na Fundação Gulbenkian, e segue a artista durante mais de um ano, contando o processo da organização da exposição.
Tomei contacto com o trabalho de Ana Vieira pela primeira vez em 2004, com um projeto que ainda hoje me habita o pensamento, intitulado “Casa Desabitada”. Tratou-se de uma instalação múltipla numa casa desabitada e devoluta, na Rua Ivens, nº56, 3º esquerdo, Lisboa. Entre 8 de maio e 6 de junho de 2004, a lógica era a casa ter um aspeto de ser habitada, de acordo com a artista, enquanto o visitante sentia-se sempre um voyeur. Consistia de várias instalações sonoras e vídeo, como por exemplo, uma voz que dizia aos visitantes para saírem da casa, tipo voz de anúncio de aeroporto ou uma discussão entre marido e mulher. Ainda hoje é uma das memórias mais presentes que tenho de intervenções artísticas a que tenha assistido.
Ana Vieira nasceu em Coimbra, em 1940, e depois de passar a infância e adolescência em São Miguel, mudou-se para Lisboa com vista a estudar Pintura na Escola Superior de Belas Artes (1964).
O seu percurso não seria a pintura, mas sim a construção de espaços, sensações e emoções, como que num cenário ou simulação da realidade a três dimensões. Vivendo sempre em Lisboa, são muitos anos de trabalho e de uma carreira que penso não ter sido merecidamente reconhecida. Talvez seja apenas facciosismo açoriano, talvez seja “apenas” admiração por um trabalho poético e interventivo de qualidade!
Acabou por se estabelecer no terreno da instalação, termo sempre algo suspeito para quem anda mais distanciado da contemporaneidade, mas é o que melhor define o trabalho de Ana Vieira. Fez vários trabalhos na área da cenografia e construção de figurinos para teatro, assim com trabalhos em museus, onde estava sempre presente a manipulação de objetos tridimensionais, como em toda a sua poética obra.
No seu percurso já foi reconhecida diversas vezes, destacando-se a 1ª Bienal dos Açores e do Atlântico, o concurso Dyrup/Cidade de Lisboa, e o prémio da crítica portuguesa AICA/SEC. A Fundação de Serralves dedicou-lhe a sua primeira exposição antológica em 1998, e entre 2010 e 2011, o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, em colaboração com o Museu Carlos Machado de Ponta Delgada, apresentaram a maior retrospetiva na carreira da artista plástica.
Encontra-se representada em coleções como das já referidas Centro de Arte Moderna e Fundação Serralves, Coleção Berardo, Musée Cantonal des Beaux-Arts (Suiça) e Fundação EDP, entre outras.
Mas foi a exposição “Muros de Abrigo” que a trouxe de volta, pelo menos à comunicação social, proporcionando-lhe alguma visibilidade merecida. Com curadoria de Paulo Pires do Vale, esteve patente na Gulbenkian entre janeiro e março de 2011, e tratou-se de uma visita ao vasto trabalho e poética de Ana Vieira, desde os anos 60 até ao presente.
O título refere-se à sua memória de infância, quando se dirigia para os muros de abrigo (para proteção da vinha) na quinta dos seus pais, em São Miguel, abrindo portas umas atrás das outras para lá chegar.
Aliás, as referências a muros, portas e janelas são recorrentes na obra de Ana Vieira, estando sempre presentes nos ambientes que cria. Pega em objetos simples, e confere-lhes uma estranheza e poder, que se tornam impertinentes, incomodativos até. E é isso um bom trabalho artístico, questionando, incomodando, ou como se diz recorrentemente nos Açores, inquietando!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Jospeh Amaral - um bom regresso...








Joseph Amaral nasceu em São Miguel, e aos 6 anos emigrou para o Canadá, onde fez a sua formação e se estabeleceu profissionalmente. Agora regressou aos Açores,  onde recentemente expôs na Academia das Artes dos Açores.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"The Dude", Big Lebowski

The Big Lebowski (1998)

Este não é apenas mais um dos filmes dos irmãos Cohen, mas sim um dos seus mais marcantes para o conceito de cultura popular do cinema. Recheado de excelentes atores, coube a Jeff Bridges representar Jeff Lebowski, "The Dude", numa típica história de engano de identidades, onde ocupa o lugar de um milionário a tentar salvar a sua mulher de um sequestro.
Esta brilhante comédia de costumes e de época, que nem teve grande sucesso quando estreado nos cinemas, tornou-se um dos mais significativos filmes de culto dos últimos anos, nomeadamente nos EUA, onde inclusive se formou uma religião em torno da personagem de Bridges (o "Dudeísmo"), com base na atitude desleixada e boa onda permanente...
De destacar ainda a brilhante banda sonora, tão típico dos irmãos Cohen.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Marcel Mauss - uma verdadeira dádiva

Marcel Mauss - Ensaio Sobre a Dádiva (1925)

Este foi sem dúvida um dos livros que mais me marcou na fase inicial da licenciatura em Antropologia, do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, no original Essai sur le don: forme et raison de l'exhange dans les societés archaiques, ou seja, "Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas".
Publicado no longínquo ano de 1925, aborda as trocas nas sociedades tidas então como primitivas, sendo considerado por muitos como o mais antigo estudo de carácter etnográfico, antropológico e sociológico sobre reciprocidade, intercâmbio e o conceito de contrato.
O trabalho refere-se à investigação entre os indígenas das Ilhas Trobriand (Papua Nova Guiné) e índios da América do Norte, sobre o conceito da dádiva.
Resumindo, este ensaio foca-se na troca de objetos entre grupos, e de como essa troca constróis relacionamentos entre esses grupos, pois ao doar um objeto (ou presente), o doador cria uma obrigação face a quem o recebe, que por sua vez fica com o ónus de devolver um presente, originando uma das primeiras formas de economia social e solidariedade social que realmente unem os grupos humanos.
Faz parte da abertura da mente para o humanismo existente nos estudos antropológicos...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Panda Bear - Tomboy - Experimentar - Lisboa

Panda Bear - Tomboy (2011)

Disco repleto de várias camadas de música, este trabalho de Noah Lennox traz-nos um melódico som, onde, e pelo facto de viver atualmente em Lisboa, se destaca o curioso tema "Benfica", dedicado à vitória, e que inclui alguns sons ao vivo do estádio... tal pena não viver no Porto.
Este novo herói da música "alternativa" produziu uma mudança radical em relação ao seu último trabalho, contranstando, obviamente...
Conhecido pelo seu experimentalismo, obteve reconhecimento internacional como membro e fundador dos Animal Collective, um coletivo de Baltimore já com muitos discos produzidos e um forte impacto na comunidade independente da música norte-americana.
A experimentar, como eles...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Sombra do Vento – leitura de um verão (2011-08-09)


A começar pelo título, o livro que hoje decidi escamotear, fez as delícias do meu verão literário. Não têm abundado os livros lidos por mim nos últimos anos, pelo menos sem cariz académico ou de interesse profissional.
Sou um fã incondicional de Graham Greene, sobre quem já deveria ter escrito, nem que seja apenas pela perspetiva de partilhar um dos autores mais intensos moralmente que já li, assim como um génio da narrativa. Regressando ao texto, nos últimos anos, nenhum outro livro me atraiu ou fascinou tanto como A Sombra do Vento, do agora mediático Carlos Ruiz Zafón.
Lançado em 2001, na continuidade de uma série de livros de cariz juvenil e fantástico, adota um estilo definitivamente adulto e intenso. A história passa-se em Barcelona, cidade já mágica de si, mas ainda mais carismática nas linhas desta obra. Começando em 1945, vamos seguir a história de um jovem, Daniel Sempere, que no seu 11º aniversário é levado pelo seu pai a um lugar que lhe vai mudar a vida: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde depara com um livro com o mesmo título da obra: A Sombra do Vento! Começa a aventura.
Daniel, que perdera a sua mãe poucos anos antes, fica fascinado pelo livro, iniciando uma busca de informações e dados sobre o livro e o seu autor, descobrindo que alguém anda a comprar e destruir todos os exemplares.
Existe de certo uma base que parece levar para o fantástico, tipo Harry Potter ou as profecias de Dan Brown, mas depois a densidade elevada dos personagens remete-nos para outro tipo de leitura, mais profunda, mais humana e nada fantástica.
Acho que se pode fazer um breve resumo, afirmando que reúne técnicas de intriga e suspense, romance histórico e comédia de costumes e valores, sendo no fundo uma trágica história de amor com uma grande força narrativa e uma intriga que se mantém até á última página!
Este livro tornou-se num fenómeno nos últimos anos, tendo atingido a incrível cifra de 6,5 milhões de exemplares vendidos, em cerca de 20 países, e por um autor que se estreava em obras mais adultas, depois das já referidas aventuras de cariz juvenil que tinham obtido algum sucesso.
Desconhecia por completo Ruiz Zafón, e este livro veio parar-me às mãos, ao bom estilo da sua sedutora história, por mero acaso (mais ou menos…), sendo-me oferecido pelo aniversário. E foi um belo presente, pois é de facto um livro que nos faz sonhar.
Carlos Ruiz Zafón nasceu em 1964 em Barcelona, cidade que, segundo me parece, será sempre a base das suas grandes histórias. Em 1993 ganha o seu primeiro prémio, com a obra O Príncipe da Névoa, o seu primeiro livro!
Publicou depois mais quatro romances, sempre de cariz juvenil, até A Sombra do Vento, finalista dos prémios Fernando Lara e Llibreter. Em Portugal foi premiado com as Correntes d’Escritas de 2006.
Durante a sua juventude era conhecido pelos amigos por inventar histórias assustadoras, fascinado por um mundo de robôs, fantasmas e palacetes modernistas. Vive atualmente nos Estados unidos, onde obteve igual sucesso ao nível de vendas e crítica, e escreve também guiões para cinema, mantendo uma colaboração com os jornais El País e La Vanguardia, na sua natural Espanha.
Em 2008 saiu o seu último romance, O Jogo do Anjo, tendo já vendido mais de um milhão de exemplares em Espanha. Talvez seja a minha próxima leitura, daqui a uns seis meses…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

magnolia

Magnolia (1999)

Aqui está um dos grandes filmes da minha geração, pelo menos de uma abrangência razoável, e com sucesso comercial inclusive, mas acima de tudo, um grande filme de Paul Thomas Anderson (Boogie Nights, Punch-Drunk Love e There Will Be Blood).
Este drama, com elenco de luxo (Tom Cruise no seu melhor, Phillip Seymour Hoffman a começar a brilhar e o sempre surpreendente William H. Macy), é um conjunto de pequenas e aparentemente isoladas histórias, que se cruzarão num mosaico sobre felicidade, perdão e significado da vida.
Uma das frases do filme exemplifica o alcance que teve em inúmeras discussões: 
- "We might be through with the past, but the past ain't through with us"...
Para acabar com chave de ouro, a banda sonora é fantástica, no melhor trabalho de Aimee Mann, a quem foi atribuído o trabalho, embora conte com músicas de Gabrielle, Supertramp e Jon Brion.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A parte ecléctica dos Beatles

The Beatles - The Beatles (1968)

É até estranho comentar o trabalho e legado dos Beatles, mas vou tentar não me deixar impressionar pela sua dimensão. Este disco, mais comummente conhecido como o "álbum branco", é o nono dos Beatles, de 1968.
Conhecido também por ter sido o resultado de um período menos bom para o ambiente na banda, após a também famosa visita ao Maharishi Mahesh Yogi, um guru indiano, numa viagem de grupo espiritual.
Mesmo com tantas divisões e brigas na banda (Ringo Starr chegou a abandonar as gravações, ficando McCartney na bateria...), e com uma reacção fraca por parte dos ouvintes, o disco é considerado um marco da música do século XX, devido principalmente ao seu ecletismo. Vendeu 30 milhões de cópias, e chegou ao top de álbuns do século da revista Rolling Stone (n.º 19).
Obrigado Beatles.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Clint Eastwood: "cabóiada" com emoções...

Unforgiven (1992)

Um western à moda antiga, com toques de brilhantismo ao nível da realização, do homem que agora deu para falar com cadeiras vazias - mas os grandes génios são assim mesmo...
Além da qualidade do filme, do elenco incrível (Clint Eastwood, Gene Hackman e Morgan Freeman, entre outros), e da referida brilhante realização, existe ainda uma diferente áurea, onde se abordam questões básicas da humanidade e da sociedade, explanando o porquê de tanta violência naquele período da história norte-americana, como a insegurança masculina e a influência do álcool (aliás, temas perfeitamente atuais...).
Este memorável filme de 1992 acabou por arrecadar os Óscares de melhor filme, melhor realizador e ainda melhor ator secundário (Hackman), assim como outras nomeações e prémios.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pelo Tempo: "Festivais Para Todo o Gosto" (2011-07-15)

Novo governo, novas regras, o mesmo medo. É Portugal, na sua sintomática realidade, da qual não se desprende por um conjunto infinito de maus hábitos há muito instalados… mas isso é mesmo assim, e o que gostamos é de festa!
Nem quero abordar o cliché cultural dos açorianos (e terceirenses em particular) serem especialistas em festa, mas sim o que se passa ao nível nacional: só quatro festivais de música de verão vão receber cerca de 500 mil pessoas!
Combatendo a crise com nomes ainda maiores e estrategicamente mais aliciantes para o público, a austeridade não se demonstra nos festivais de grande dimensão a realizar este ano. Tivemos o Optimus Alive, com um orçamento de 6,5 milhões de euros, e talvez uma das melhores razões para sucumbir ao calor de Lisboa no verão: os Coldplay, banda inglesa que atualmente arrasta multidões aos palcos europeus, roubando a primazia aos eternos U2.
Depois, ainda em julho e agosto, também se esperam grandes enchentes nos festivais do Sudoeste TMN e Super Bock Super Rock, ultrapassando as vendas do ano passado, e com uns interessantes 15% de público estrangeiro.
Numa outra dimensão, mas ainda com alguma importância, temos o Festival Paredes de Coura, também em agosto, e com orçamento reforçado, superior a 2 milhões de euros, empregando cerca de 500 pessoas numa zona do interior do país.
Além dos mediáticos artistas que passam por estes grandes eventos, de tendência megalómana e massificada, muitos outros decorrem em Portugal durante o verão, com outra dimensão, e necessariamente, outra atenção ao pormenor.
Gostaria de destacar o Festival Med, que se realiza em Loulé, por onde passaram 22 mil pessoas em quatro dias, contando este ano com George Clinton (o pai do funk!) como cabeça de cartaz. Trata-se da oitava edição de um festival dedicado apenas à música do mundo, no centro histórico de uma pequena e turística cidade algarvia. São seis palcos no centro histórico, restaurantes, exposições e teatro a acontecer pela cidade, que ainda contou este ano com os Afrocubism e os Balkan Brass Battle.
Mas o grande momento em Portugal dedicado exclusivamente à música do mundo é o FMM (Festival Músicas do Mundo), que se realiza em Sines desde 1999. No ano passado estiveram cerca de 90 mil pessoas, distribuídos por quatro dias, vários palcos e atividades, sendo o destaque para a edição de 2011 a presença dos galegos Berrogüeto e da brasileira Luísa Maita, assim como do projeto “O Experimentar Na M’Incomoda”, onde a música tradicional açoriana é reinventada através do digital, numa ideia de Pedro Lucas.
No que diz respeito à música de tendência erudita, que muito público tem em Portugal, deve-se realçar o Festival de Sintra, em julho, na sua 46ª edição, e pela mesma altura, o Festival Internacional de Música de Espinho, este na sua 37ª edição, e sempre com um cartaz de exceção.
Mas muitos outros festivais acontecem em Portugal durante o verão, alguns ganhando já notória dimensão, como o Delta Tejo, com músicas originárias de países produtoras de Café, no início de julho, em Oeiras; o Festival Marés Vivas, a meio de julho em Vila Nova de Gaia, e em setembro a eterna Festa do Avante, com um cariz mais específico, mas muito festivaleiro!
Outro festival que vem ganhando nome e respeito é o CoolJazz Fest, realizando-se no fim de julho, este ano com vários nomes, entre os quais Seal, Cuca Roseta e Maria Rita.
Saindo da música, temos o aclamado Festival de Teatro de Almada, na sua 28ª edição, que além de espetáculos, inclui ainda exposições, colóquios e debates, entre 4 e 18 de julho, em Almada, Lisboa e Porto.
A nível regional também não ficamos atrás, pois nos últimos anos tem-se consolidado o conceito de festival, muito devido à redescoberta mobilidade entre ilhas, via Atlanticoline. Começando logo em junho pelas Sanjoaninas, que oferecem sempre um cartaz único, seguido pelas Festas da Praia (início de agosto), a Maré de agosto e o Azurre, durante o mês de agosto, e estes talvez com um conceito mais perto de festival, e em setembro, a concluir, o AngraRock.
Por fim, gostava de falar de dois festivais menos comerciais e se quisermos, ligeiramente “alternativos”: o Festival Para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira, dedicado apenas a cantautores, tendo já passado por lá nomes como Sufjan Stevens ou Davendra Banhart; e o Festival ao Largo, com música sinfónica e coral, dança e bailado ao ar livre, tudo isto à porta do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, e com acesso gratuito.
Bom verão!


PS. Vem a jeito, recordar este artigo, em plena fase de trabalho para um projeto da Associação Cultural Burra de Milho, com o apoio da Direção Regional da Cultura, com vista à realização de um documentário sobre o mítico festival da Riviera, o "Musical Açôres 1976".


terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Magnífico Absurdo de Kafka

Franz Kafka - O Processo (1925)

Este romance de Franz Kafka marcou a minha adolescente paixão pela leitura, acima de tudo, pelas possibilidades de criatividade e complexidade que um género de literatura como o romance tem.
Curiosamente do mesmo ano do livro agora em destaque no blogue (Ensaio Sobre a Dádiva, de Marcel Mauss), aqui Kafka conta a história de Josef K., um personagem que um dia acorda, e sem razão aparente, é preso e sujeito a um longo e pesaroso processo em tribunal por um crime não revelado...
Toda a atmosfera carregadíssima em que a narrativa se enquadra é marcante do estilo e universo "kafkiano", onde o absurdo existencial é levado ao limite! No entanto, revela-nos um humanismo muito profundo, levando a colocar questões sobre a nossa inocência no geral da nossa existência.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A profundidade em Zach Condon (Beirut)

Beirut - The Flying Club Cup (2007)

Zach Condon continua a impressionar. Com os seus 21 anos de idade, realiza outro trabalho de uma profundidade e criatividade incríveis. The Flying Club Cup é um álbum que tresanda a maturidade, muito composto, e com a já habitual inspiração de orquestras de sopro da Europa de Leste (à Kustorica), assim como um tom folk baseado em instrumentos de corda.
Um trabalho muito pensado, divertido e sofisticado, que se resume em mais um álbum de sucesso de Zach Condon (Beirut).


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma Coisa em Forma de Assim (2011-07-08)


Mesmo numa quarta-feira, mesmo sem ser no Teatro Angrense, e em pleno momento de crise, foi louvável a iniciativa da Culturangra em brindar a cidade com o espetáculo “Uma Coisa em Forma de Assim”, da Companhia Nacional de Bailado.
Com uma casa quase cheia, o espetáculo acabou por resultar no grande auditório do Centro Cultural, algo que alguns elementos do público temiam, ou pelo simples facto de preferirem sempre o já referido espaço.
Seria louvável que todas as grandes instituições públicas com responsabilidades na arte promovessem digressões nacionais, uma das melhores formas de levar a todo o território, principalmente ilhas, espetáculos de grande qualidade, e acima de tudo, de grande atualidade, pelo menos no panorama nacional.
Neste caso suplantou-se esse mesmo propósito, pois trata-se de uma obra criada por alguns dos mais importantes coreógrafos portugueses, a convite da Companhia Nacional de Bailado, ficando a composição e interpretação musical a cargo de Bernardo Sassetti.
A ideia teve origem com vista a assinalar o Dia Mundial da Dança, no passado dia 29 de abril, juntando os coreógrafos Francisco Camacho, Clara Andermatt, Benvindo Fonseca, Rui Lopes Graça, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Olga Roriz, Madalena Victorino e Vasco Wellenkamp, artistas com trabalhos muito distintos, para trabalhar com os bailarinos residentes da companhia, e com a magnífica oportunidade de ter a música interpretada ao vivo pelo próprio autor.
Durante junho e julho a companhia partiu então em digressão por todo o país, cabendo-nos na sorte Angra do Heroísmo (CCCAH, 6 de julho) e Ponta Delgada (9 de julho, Teatro Micaelense), depois da estreia nacional a 28, 29 e 30 de abril no Teatro Camões.
“Uma Coisa em Forma de Assim” foi o título escolhido para esta obra, baseado no livro de Alexandre O’Neill, que se trata de uma compilação de artigos previamente apresentados na imprensa escrita, como um conjunto de retalhos que os vários coreógrafos nos apresentam.
Cenário montado, luz apagada, começou o espetáculo a tempo e horas. A primeira coreografia ficou a cargo de Madalena Victorino, e contou com todos os bailarinos participantes nas restantes peças. Foi talvez o momento mais arriscado e irreverente, ao estilo da muito aclamada autora.
O segundo momento da noite ficou a cargo de Vasco Wellenkamp, talvez uma dos mais credenciados e conhecidos nomes do bailado português, com um estilo mais romântico e clássico, sempre no registo do contemporâneo, e com a excelente bailarina principal Peggy Konik. Depois seguiu-se a coreografia de Paulo Ribeiro, um favorito pessoal, e que se tornou no preferido da noite, com um corpo de quatro bailarinos, com um ambiente muito orgânico, fazendo-nos lembrar o planeta e a solidariedade que talvez deveria haver nesta fase da nossa vida.
Rui Lopes Graça, bailarino solista da companhia, coreografou a peça seguinte, com um bonito, romântico e intenso par, com destaque para a bailarina Yurina Miura. Depois tivemos uma apresentação de Francisco Camacho – uma primeira vez para mim – com um divertido e físico duo masculino. Outro dos momentos altos da noite foi a coreografia de Rui Horta, outro facciosamente preferido pessoal, com um potente solo de Marta Sobreira, conjugando várias nuances sobre o corpo, numa performance muito física, ao bom estilo do coreógrafo.
A peça imediata esteve ao cargo de Benvindo Fonseca, outro bom regresso à Terceira. Foi claro o seu sensual estilo e traço nesta romântica coreografia, bem suportada pelo bailarino principal Tomislav Petranovic. Depois foi Olga Roriz, aplaudida coreógrafa, que apresentou uma estética muito própria, qual Paula Rego da dança portuguesa. Uma mulher intensa, perdida e confusa... mas poderosamente interpretada por Isabel Galriça.
A concluir, nova coreógrafa de eleição pessoal, Clara Andermatt, e que felizmente não defraudou as expectativas, criando um final em grande, envolvendo totalmente os bailarinos Irina de Oliveira e Nuno Fernandes no instrumento central desta noite: o piano de Bernardo Sassetti.
Mesmo com os referidos preferidos pessoais, a grande capacidade física e disponibilidade emocional dos bailarinos, e os destaques para as bailarinas Marta Sobreira e Irina de Oliveira, a noite foi também muita de Bernardo Sassetti. Sempre bem recebido na ilha, onde tem um grande número de fãs, esteve sempre de corpo e alma na obra, do início ao fim, com altos e baixos de intensidade e de participação nas coreografias. Muito bom.
O público terceirense, que ocupava cerca de 3/4 da sala, soube avaliar a noite, aplaudindo efusivamente vários regressos e apresentações dos artistas, mas não culminando com uma ovação em pé, que seria exagerada na minha opinião.
Tratou-se também de um excelente momento pedagógico, pois deu-nos oportunidade de vermos trabalhos de vários coreógrafos, com diferentes estilos, tudo numa noite. Do mais romântico e clássico, ao mais irreverente e transversal, presenciámos de tudo nesta bonita e importante noite de dança na ilha Terceira.
Ao nível das expectativas do público podemos identificar aqui alguma ambivalência: para quem conhece alguns dos trabalhos dos coreógrafos presentes, ficou certamente com a vista e o coração saciados. Para quem tem menos oportunidade talvez não.
Infelizmente são apresentados um ou dois momentos de dança na ilha por ano, e nem sempre de qualidade, pelo menos pedagógica ou inovadora. Isso faz com que exista um público que gosta realmente de dança, mas que tem poucas oportunidades para assistir ao vivo a esses momentos. Talvez para esse público, este evento tenha sido um pouco descontextualizado. Mesmo assim, fica de certeza a beleza e a fisicalidade dos movimentos dos excelentes bailarinos.
Repito, uma importante noite de dança.


PS. Talvez a última passagem de Sassetti pela ilha...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Wong Kar-Wai: sempre disponível para amar...

In The Mood For Love (2000)

Talvez depois de Chunking Express, este tenha sido o filme que catapultou o realizador chinês Wong Kar-Wai para o reconhecimento internacional, com um estilo bastante próprio, de um grande perfeccionismo visual.
Em Disponível Para Amar (versão portuguesa), aborda um amor platónico entre dois vizinhos, ambos vítima de traição pelos respetivos parceiros, mas que ao mesmo tempo não podem consumar o seu amor...
Trata-se de uma intensa história, não só de amor, mas de insinuações, numa narrativa complexa, mas visualmente viciante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Jethro Tull: nitidamente 40 anos à frente do seu tempo...

Jethro Tull - Aqualung (1971)

Numa época em que o "neo-punk" e um certo "glamour-retro-punk" (?), com toques de gótico, vigora com sucesso as frescas mentes dos ouvintes, em casos como Ariel Pink, Beach House ou mesmo uns mais batidos Animal Collective, lembrei-me de procurar no baú das minhas memórias musicais... e a redescoberta dos Jethro Tull foi óbvia!
Muitas vezes catalogados como "hard-rock", o que nos dias de hoje já não pegaria na comunicação social especializada, trata-se de facto de uma banda com uma visão social brilhante, de forte sentido crítico e com muito humor, para não falar numa verdadeira abordagem a um som que poderíamos intitular "folk-punk".
Este álbum em particular, um dos meus favoritos, surge numa época (1971) bastante conservadora, e com um discurso anti-igreja, mexendo com as mentalidades da época. Foi chegando no entanto aos "tops" devido à muito boa música patente no trabalho...
Neste mistura de "hard-rock" com "folk", com um som verdadeiramente atual, demonstram a intemporalidade da música, mesmo da mais radical e controversa, e que celebrou 40 (!) anos em 2011, tendo sido reeditado várias vezes e com diferentes remasterizações, pois curiosamente, não tem a certeza de qual foi a cassete original que deu origem ao disco... coisas à Ian Anderson!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pelo Tempo: "Cannes – Cinema e Justiça" (2011-07-07)


As injustiças têm de ser combatidas, e mesmo vivendo num clima muito complicado em Portugal, existe infelizmente sempre alguém que se encontra em situação pior. Volto a referir a situação de Jafar Panahi, realizador iraniano sobre o qual já escrevi neste espaço, e que continua em prisão domiciliária e proibido de trabalhar durante 20 anos!
Mas a comunidade internacional não esquece esta situação, e prova disso é o facto de ter sido apresentado um filme seu, produzido quase clandestinamente, no renomeado Festival de Cannes, depois de no ano passado ter sido proibido pelas autoridades iranianas de nele participar enquanto membro do júri.
Cannes sempre teve um toque de irreverência, e se deve o seu início ao inconformismo perante o fascismo alemão e italiano, no fim dos anos 30, acaba por ter a sua primeira edição em 1946, tendo uma continuação intermitente devido a problemas financeiros.
Ganhou uma grande conotação “cor-de-rosa”, ao tornar-se de facto um dos eventos mais glamorosos do planeta, e um momento fundamental para o turismo no sul de França, mas sempre elevando a sua qualidade cinematográfica.
É o grande encontro mundial da indústria cinematográfica, onde os profissionais da área tem oportunidade de encontrar apoios, gerar mega projetos e internacionalizar ainda mais os seus contactos. Desde os anos 60 que realizam durante o festival o Mercado do Filme, que conta com mais de 10.000 participantes e 4000 filmes, sendo o principal mercado do mundo.
O seu ponto forte talvez seja o delicado equilíbrio entre a alta qualidade artística e o impacto comercial dos filmes apresentados, garantindo uma publicidade e divulgação a nível internacional, mas mantendo sempre a importância da noção de “cinema de autor para uma grande audiência”.
Este ano, entre 11 e 22 de maio, foram muitos os que pretenderam almejar os referidos prémios, desde o filme de abertura do festival, “Midnight in Paris” de Woody Allen ao filme biográfico sobre Nicolas Sarkozy, “La Conquête”.
Muitas vedetas passaram pelo evento, como os mediáticos Angelina Jolie e Brad Pitt, os representantes europeus Nanni Moretti e Pedro Almodôvar, ou os destaques do ano, com o realizador de “A Árvore da Vida”, Terence Mallick e o membro do júri, Robert De Niro.
Um dos momentos quentes foi a apresentação do filme de Panahi, “In Film Nist” (Isto Não é um Filme), uma espécie de diário biográfico sobre um artista impedido de trabalhar... Outro corajoso realizador iraniano conseguiu também produzir um filme nas barbas das autoridades, Mohammad Rasoulov, com “Be Omid-e Didar” (Adeus), retrata a vida de um advogado em Teerão que tenta sair legalmente do país, encontrando várias dificuldades.
Outro momento quente acabou por serem as “difamatórias” declarações do louco Lars von Trier sobre a sua “compreensão por Hitler”. Do seu filme, “Melancolia”, destaca-se a vitória para a melhor actriz, Kristen Dunst.
A Palma de Ouro, o mais prestigiado prémio, foi para o esperado filme de Malick, “A Árvore da Vida”, tendo Jean Dujardin ganho o prémio de melhor actor, em “The Artist”. Destaque ainda para o Grande Prémio, com o empate entre "O Garoto de Bicicleta", de Jean-Pierre e Luc Dardenne, e "Once Upon a Time in Anatolia", de Nuri Ceylan.
Ao nível das revelações e da inovação, destaque para cinco filmes e os seus respectivos realizadores: “Polisse”, de Maïwenn Le Besco (filha de Luc Besson, o conhecido actor francês); “Drive”, de Nicolas Winding Refn; “Take Shelter”, de Jeff Nichols (com pretensão aos Óscares…); “Return”, de Liza Johnson; e “Elena”, de Andrei Zvyaguintsev.
Agora resta esperar pelas estreias em Portugal, e como dizia o outro: “bons filmes”!

PS. Já os vi quase a todos, passado mais de um ano, com destaque para o próprio filme de Panahi e o de Woody Allen.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Rei da Exposição: Brian Matthew Hart

 how to stand | 2011

lauren on couch | 2012

right hand [unfinished diptych] | 2012

Estas são algumas imagens do fantástico trabalho de Brian Matthew Hart, um verdadeiro mestre do desenho com luz, como o exemplo desta mão, feita com 324 fotografias onde utiliza a luz em movimento.

Esta técnica fotográfica consiste em exposições movendo uma fonte de luz, como aquelas famosos fotos das luzes de automóveis em torno de uma praça qualquer... Este trabalho tem origem, e faz mesmo lembrar, os seus percussores, como Frank Gilbreth, Man Ray ou Barbara Morgan:

Barbara Morgan - Samadhi

Frank Gilbreth - Work Simplification Study

Manray - Lightpaiting

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Monty Python (versão editada para advogados...)

Monty Python: Almost the Truth - Lawyers Cut (2009)

Este documentário de 2009, de seis episódios, que a RTP2 brilhantemente se lembrou de exibir, cobre o trajecto deste grupo, as suas vidas pessoais antes do projeto, e os trabalhos desde o marcante Flyning Circus até aos nossos dias, com o óbvio destaque para And Now For Something Completly Different (E Agora Para Algo Completamente Diferente, 1971) e Holy Grail (Em Busca do Cálice Sagrado, 1975), assim com Life of Brian (A Vida de Brian, 1979) e o filme final, The Meaning of Life (O Sentido da Vida, 1983).
São indiscutivelmente os pais da comédia moderna, com a insistente fórmula britânica do insólito e non sense, e marcaram várias gerações, mesmo já não realizando um trabalho há quase trinta anos (em conjunto...).
Como é possível esquecer os vários ataques de escoceses, com as camisas amarradas à cabeça e em trajes de mineiros, o famoso jogo de futebol entre os filósofos gregos e alemães, ou os pajens, acompanhando a trote com o som de dois cocos o seu cavaleiro apeado em plena busca do Graal.
Este sim, unidos, jamais serão vencidos!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

OuVido: Akron/Family, em pura liberdade criativa...

Akron/Family - Set 'Em Wild, Set 'Em Free (2009)

Os Akron/Family, talvez ainda pouco conhecidos em Portugal, são originários de Nova Iorque, mais especificamente do bairro "indie/hippie" de Williamsburg, Brooklyn, um dos atuais locais de referência para a música nos últimos 10 anos.
Do folk ao rock experimental, passando obviamente pelo psicadélico, esta banda já nos deu de tudo. Este trabalho de 2009 começa com um funk bem ritmado, e leva-nos ao soul, indie eletrónico e paisagens sonoras do mais variado possível, por estes três jovens revolucionários.
Também há uns meses atrás ninguém conhecia ou dava crédito aos Beach House e Ariel Pink, e agora é ouvi-los em anúncios televisivos e programas de imobiliária e design...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Pelo Tempo: "Sinfonia Imaterial – O Filme" (2011-06-16)


Foi apresentado esta semana no Auditório do Ramo Grande, numa iniciativa da Direção Regional da Cultura, o filme “Sinfonia Imaterial”, de Tiago Pereira. Este projeto resulta de uma encomenda feita pela Fundação INATEL, em coprodução com a Associação Pé de Xumbo e com o apoio da referida direção regional.
O realizador Tiago Pereira, com total liberdade criativa, fez uma longa viagem por Portugal, do Minho aos Açores, entre março e abril deste ano, filmando exemplos de tradições musicais e não só, conseguindo suaves e interessantes transições entre diferentes momentos.
O filme não tem narração, nem voz-off, nem legendas, sendo-nos apenas apresentado o local e instrumentos a serem executados. Trata-se de uma peça, que não sendo um documentário, também não é necessariamente ficção, mas um filme sem narrativa, que mais poderá ser considerado um “sampling” (misturar) de momentos espontâneos de tradição musical e cultural.
Dos Pauliteiros de Miranda a uma senhora faialense de 91 anos a tocar guitarra portuguesa com uma firmeza e qualidade indiscutível, são muitas as tradições e instrumentos musicais que nos aparecem ao longo do filme, das rabecas aos adufes, das violas da terra ao curioso “bexigoncelo”, instrumento em desuso nas tradições madeirenses, e que consiste na utilização de uma bexiga de porco para a elaboração de um instrumento que faz lembrar um violoncelo, mas apenas com uma corda.
Como foi também referido pela representante do INATEL, não foram tidas em conta quaisquer preocupações científicas, de cariz etnográfico ou musicológico, mas apenas a captação de registos espontâneos da tradição musical hoje em dia. As filmagens são sempre em plano fixo e enquadradas numa paisagem natural, em tascas ou em salas de estar.
Tiago Pereira, o realizador, de 38 anos, desde cedo se interessou por som e animação, tentando sempre aliar o tradicional com o contemporâneo, com um objetivo bem definido: chegar à tradição de futuro. Foi já distinguido por vários filmes, como “11 Burros Caem no Estômago Vazio” e “Quem Canta Seus Males “Espanta”, em festivais como o DocLisboa, Dialektus Festival (Hungria) e Ovarvídeo.
Podendo-se identificar mais com um músico do que como realizador, os seus filmes são autênticos exemplos de “sampling” visual e sonoro, sempre misturando o tradicional e o contemporâneo, referindo-se inclusive a DJ Spooky, o famoso “sampler” norte-americano (que mistura tudo, desde uma campainha de telefone a um chocalho de cabras), cujo lema é “deem-me dois discos e dou-vos o universo”, ou como em tom de brincadeira diz Tiago Pereira: “deem-me duas velhinhas e eu dou-vos o universo.
Trata-se pois de uma interessante abordagem ao património oral português, em constante mutação e utilização por centenas de milhares de pessoas, não se podendo no entanto comparar a abordagens mais académicas da área da etnomusicologia e das recolhas das tradições orais, com as principais referências portuguesas a serem “atiradas a um canto” pelo realizador, propositadamente, imprimindo uma linguagem mais contemporânea, na minha opinião igualmente importante.
São várias as referências aos importantes trabalhos de Michel Giacometti, Artur Santos, Fernando Lopes-Graça e Ernesto Veiga de Oliveira, nos anos 50, 60 e 70. Mais recentemente são de destacar também Rui Vieira Nery, José Alberto Sardinha e ainda Manuel Rocha (Brigada Vitor Jara). Todos estes nomes seguem uma linha de ação que pretende estudar a música no seu contexto cultural, ou o estudo da música como cultura, concentrando-se na forma de compreender o porquê daquela música ser como é.
Entre exemplos de todo o país, os Açores talvez sejam a região mais representada, começando e acabando o filme na região. Dos foliões das várias ilhas, passando pelas cantigas ao desafio, até ao chamamento do búzio, são vários os momentos que nos tocam mais fundo, pois identificamo-nos automaticamente.
Um belo registo, que provavelmente voltará a ser exibido na região.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Leituras: o humanismo de Graham Greene

O Fim da Aventura (1951)

Graham Greene continua a ser o meu predileto autor, no que diz respeito a consumo de livros, ou seja, é o autor de quem li mais até hoje.
Em O Fim da Aventura (The End of the Affair), Greene apresenta-nos uma comovente ligação amorosa entre Bendrix e Sarah, repentinamente interrompida por esta, sem qualquer explicação.
Os tempos em que vivem são intensos, em Londres, durante os bombardeamentos da II Guerra Mundial, que contribuem para o pesado ambiente da história. Dois anos passados do fim da relação, e ainda conduzido por ciúme e grande dor, Bendrix contrata um detetive privado com vista a descobrir o que realmente se passou.
Daí para a frente o relato é mágico, sempre com uma narrativa envolvente, e terminando com um magistral fim desta história de amor.
Logo quatro anos após a sua edição, em 1955, o livro virou filme, tendo obtido um relativo sucesso. Em 1999 volta aos ecrãs, por Neil Jordan, e destas vez com estrelas maiores do cinema de Hollywood, nomeadamente Ralph Fiennes e Julianne Moore, que foi mesmo nomeada para melhor atriz pelo papel.
No entanto, mesmo sendo bons filmes e passando a moral do filme, não se comparam em termos de envolvência, imaginação e suspense.
Por curiosidade, em 2004 foi adaptado para ópera por Jack Heggie, e em 2011, ao teatro, por Karla Boos.
Um verdadeiro sucesso, nascido do génio narrativo e humanista de Graham Greene.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

OuVisto e ReVisto: Lawrence da Arábia

Lawrence of Arabia (1962)

Aqui está um dos vários filmes da minha vida. 
Primeiro, é um grande filme, um verdadeiro épico, com contornos de humanidade, solidariedade e coragem profundos.
Depois, marcou uma fase da minha vida, onde o fui obrigado a ver com vista a um trabalho universitário, que me levou a mudar completamente a minha perspetiva sobre o médio oriente e os contextos islâmicos.
É baseado na obra de T. E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, e realizado pelo grande David Lean, e retrata a excêntrica personalidade de Lawrence, em plena I Guerra Mundial, quando um jovem britânico é destacado para o Egito.
Além disso, foi fortemente reconhecido, ganhando sete Óscares (incluindo melhor filme e melhor realizador), assim como muitos outros prémios (Bafta, Globos de Outro, etc.).
Vejo uma ou duas vezes por ano, na boa!


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Guarda-chuva, Guarda-sol...





Bonita e simples instalação, por Patrícia Almeida, em Águeda.
Coisas bonitas e simples em Portugal. Bem feitas!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O "melhor" dos Dead Can Dance...

Dead Can Dance - Wake (2003)

Mesmo não sendo um fã de discos de compilações, este trabalho dos australianos Brendan Perry e Lisa Gerrard (Dead Can Dance) abrange cerca de 20 anos do seu trabalho, e está muito bem elaborado, num duplo CD com perto de 30 canções/músicas.
Este "acordar" ou "despertar" deixa no ar um misterioso, de duplo sentido, numa mística e imagem que se encontram presentes em todo o trabalho desta formação, num som altamente denso e complexo.
Maravilha.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pelo Tempo: "Serreta – Peregrinação e Partilha" (2011-10-07)


Serreta, pequena freguesia no extremo ocidental da ilha Terceira, com aproximadamente 400 habitantes, com um clima fresco, ambiente saudável e uma grande carga mística.
Não sou natural da Serreta, embora desde criança tenha uma relação pessoal e familiar, que se cimentou nos últimos anos. Até o começar a pensar que lá vou passar uns dias, entre família e amigos, em festa ou em reflexão, me entusiasma, demonstrando já aqui o seu significado e importância.
Sentado a meio da tarde de sexta-feira, olhando para a rua, ainda antes da grande movimentação de gentes em torno do santuário ou da mata, escrevo algumas notas num pequeno caderno que me trouxeram de Nova Iorque. Penso logo na distância geográfica e cultural entre estes dois pontos, passando por conceitos como localismo e globalização. Era já sinal da referida reflexão…
Seria extremamente imprudente num simples artigo de opinião “falar” sobre a Serreta, a peregrinação, o santuário, as festas e a sua gente. Mas, como muitos, pelo facto de me impressionar imenso, desejo partilhá-la.
E como passar a mensagem do peso ou da importância que estes dias têm? Como explicar a magnitude de sentimentos e o orgulho que sentimos? É de facto algo muito poderoso.
Segundo reza a história, no fim do século XVII, um padre chamado Isidro Fagundes Machado, em choque com a vida em sociedade, procurou refúgio na Serreta, associando o seu desejo de isolamento com os saudáveis ares de montanha que o local oferecia. Terá construído uma pequena ermida onde colocou uma imagem de Nossa Senhora, numa localização diferente de onde hoje se situa o Santuário.
Já em 1842, o local é elevado a curato, sendo transferida para a nova igreja uma imagem de Nossa Senhora dos Milagres, e dando-se início às peregrinações, tendo vindo a tornar-se ao longo dos anos um dos mais populares cultos religiosos nos Açores, reunindo milhares de peregrinos, que a pé percorrem os caminhos da ilha.
Se para muitos é um ato de fé, numa espécie de oração em formato de promessa e demonstração de devoção, para outros será um processo de introspeção, não necessariamente de cariz religioso, mas pessoal. Para outros é o passeio e o convívio, não menos importante para a nossa robustez mental.
Alguns peregrinos optam por fazer o trajeto descalços ou carregando um número ou peso simbólico de velas, por pagamento de promessas específicas, com um forte sentimento de dádiva e gratidão, chegando por vezes a alcançarem os 40 ou 50 quilómetros de distância.
Se olharmos para cada rosto vermelho e cansado que chega ao Santuário, é difícil não pensar no peso das histórias que carregam, na importância de cumprir determinada promessa, por amor e por devoção.
Li algures que serão cerca de 20 mil pessoas a passarem pela Serreta nestes dias de festa, desde os peregrinos, às touradas e ao famoso piquenique.
Aliás, a dimensão profana das festas tem vindo a aumentar, como é disso exemplo a proliferação de tasquinhas ao longo do percurso, onde as “donetes” e as socas de milho se tornaram parte da festa, assim como a imagem de algumas famílias sentadas à frente de casa observando os peregrinos.
Na segunda-feira realiza-se a famosa toirada da praça do Pico da Serreta, tão concorrida que o dia é considerado feriado não oficial em toda a ilha, com tolerância de ponto concedida nas escolas e ao funcionalismo público.
Na quarta-feira, também a toirada de corda reúne muitas pessoas na freguesia, seja visitando antigos amigos, reconhecendo rostos com mais de 40 anos de intervalo, ou apenas para ver os toiros. Este ano ligeiramente prejudicada por jogar o Benfica…
Mas o elemento emocional e espiritual continua a ser o mais importante e significativo para as pessoas, como se presenciou após o fim da procissão de Domingo, onde centenas cantaram a Glória, ao som das sete magníficas filarmónicas presentes.
A incrível sensação de partilha, de pertença a uma comunidade, sendo ou não serretense, a um conjunto de pessoas que têm problemas, alegrias e emoções como nós, foi de facto o clímax espiritual destes dias.

Nota: um ano passado, mantém-se e intensifica-se o sentimento.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

OuVisto: Uma Viagem Selvagem..

Into the Wild (2007)

Talvez o filme mais poderoso e conseguido de Sean Penn enquanto realizador, baseado numa história verídica, passada a livro pelo jornalista Jon Krakauer, e relata a história de Christopher McCandless, que após concluir os estudos universitários, aos 22 anos, decide partir numa viagem libertadora.
Abandona todas as suas posses materiais, incluindo doar os 24,000 dólares que tinha a instituições de solidariedade, e vai de boleia até ao inóspito estado do Alaska, com vista a viver na natureza...
Durante a viagem cruza-se com algumas personagens interessantes, que continuam a moldar o seu espírito, acabando por encontrar no meio do nada um autocarro abandonado onde fica a residir.
Quatro meses depois, quando chega à fundamental conclusão de que a felicidade apenas pode existir quando partilhada com outros, tenta o regresso...
Pesado.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

David Fonseca: o artista português

David Fonseca - Seasons: Rising (2012)

Tento sempre que posso ouvir música portuguesa, e sou um defensor dos nossos artistas, principalmente quando cantam em português. Não é esse o caso, infelizmente, de David Fonseca. Neste quinto álbum David Fonseca partilha algo mais que música, conferindo uma história pessoal, associada ao calendário do ano, connosco.
Sempre bem acompanhado musicalmente, o resultado foi um excelente disco, com um som que nos preenche de facto a alma, e onde se notam influências de muitos e bons músicos.
Percebo que o David Fonseca, como outros, se sinta um cidadão do mundo, e que o inglês é de facto a língua no planeta que mais facilmente transmite uma mensagem "universal", mas se o encontrasse, dir-lhe-ia certamente: "David, por favor, grava um disco em português!"

PS. Ficaria para a história da música portuguesa, não tenho dúvidas...


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Leituras: o poder de Orhan Pamuk


Orhan Pamuk - A Cidadela Branca (2000)

Só em 2006, depois do Nobel, é que conheci este enigmático autor, através precisamente de "A Cidadela Brnaca". Quando acabei de ler este livro, devido a uma sobreposição de tarefas, nem me apercebi do que ele me ofereceu... 
Abordei-o com esperança de ser uma experiência envolvente. Assim foi, ao acompanhar o percurso de uma vida de dois indivíduos, o mestre e um escravo, cuja relação é tão próxima que os seus cérebros e corações se unem e desunem diariamente.
Viagem em busca da identidade, ou do próprio conceito de identidade e individualidade, em Istambul do século XVII. Um escrito tipo diário recuperado, é também um chamamento à introspecção por parte do leitor, principalmente depois de acabar o livro. Excelente!

Sinopse:
Em pleno século XVII, num mundo misto de fantástica sabedoria e de assustadora barbárie, um jovem estudante italiano viajava tranquilamente de Veneza para Nápoles quando foi capturado por piratas turcos. Após algumas voltas e reviravoltas do destino, torna-se escravo de um estranho cientista turco , conhecido como o Mestre. 
Este sábio, ávido pelo conhecimento científico e progressos intelectuais do Oeste, procura, recorrendo ao diferente saber do prisioneiro, conseguir o seu aperfeiçoamento intelectual e científico, e nos anos que se seguiram o escravo ensina ao Mestre o que ele aprendera no velho continente, da medicina à pirotecnia. Mas Hojas, o Mestre quer mais: quer saber o porquê de serem quem são e até que ponto, uma vez desvendados e trocados os seus mais íntimos segredos, as suas identidades não serão confundidas ou trocadas.