segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Cucurrucucú"

Hable con ella (2002)

Filme escrito e realizado por Pedro Amodóvar, com um elenco de luxo, aborda a vida de dois homens que desenvolvem uma estranha amizade, pois ambos tomam conta das suas mulheres em coma. As temáticas que se destacam abordam claramente a dificuldade de comunicação entre géneros, a solidão, a intimidade, e como sempre, o poder do amor e da sua persistência.

O filme teve grande sucesso, quer na crítica, em festivais e na bilheteira, ganhando inclusive o Óscar de melhor argumento (e nomeação para melhor realizador), o BAFTA para melhor filme estrangeiro e ainda um Globo de Ouro, entre muitos outros.

Para nossa sorte, existe ainda uma cereja (no topo do bolo): a banda sonora! Da responsabilidade do regular colaborador de Almodóval, Alberto Iglesias, temos uma sensível, pesada e triste banda sonora, com grande predominância da viola acústica e violino, e sendo o grande destaque "Cucurrucucú Paloma", tema brilhantemente executado por Caetano Veloso.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Pelo Tempo: "A Força do Cinema Português nos Açores" (2012-12-15)

Nos passados dias 3 e 4 de Dezembro chegou ao fim o ciclo de cinema contemporâneo português “Amostra-me Cinema Português”, organizado pela Associação Cultural Burra de Milho, onde ao longo de todo o ano de 2012, se procedeu à exibição de um filme por mês, sempre a uma quarta-feira, no Pequeno Auditório do CCCAH.
A ideia do projeto nasceu da falta de visibilidade que estes filmes sofrem na região, e em particular na ilha Terceira, pois não conseguem estrear em salas de grandes distribuidoras, sendo um tipo de filme que podemos considerar de “autor”, logo menos comercial e dirigido para os sucessos de bilheteira e rentabilidade.
O principal reflexo deste ciclo foi o feedback positivo por parte do público, sendo que a maioria ficou a conhecer os novos grandes filmes portugueses (de 2010 a 2012), e algumas pessoas descobriram o cinema de grande qualidade, criatividade e poética visual que se faz no nosso país, tão em voga atualmente por todo o mundo.
Importante também foi o esforço de trazer à Terceira o maior número de realizadores dos filmes exibidos, como Graça Castanheira, Sérgio Tréfaut e Gonçalo Tocha, entre Fevereiro e Dezembro de 2012, que estiveram em conversa com o público presente, antes e depois da exibição dos filmes.
Num cinema mais preocupado com o “espetador” do que com o “público”, é de realçar o número de bilhetes vendidos, estando a maioria das sessões com uma audiência muito considerável para o tipo de cinematografia, o que demonstra o conhecimento e interesse cinéfilo que ainda existe na ilha.
Existiram momentos altos durante o evento, podendo-se destacar a estreia do filme de Gonçalo Tocha, em parceria com o Instituto Açoriano de Cultura, esgotando o CCCAH e o Auditório do Ramo Grande, em noites consecutivas, com o filme sobre o Corvo, “É na Terra, não é na Lua”, ou a exibição do filme sobre José Saramago, de Miguel Gonçalves Mendes, perto da data da sua morte, e finalmente, a estreia regional de “Deste Lado da Ressureição”, de Joaquim Sapinho.
Na sessão dupla de encerramento referida (3 e 4 de Dezembro), foi também exibido “Um Filme Português”, documentário sobre o cinema atual nacional, em jeito de súmula do que foi exibido ao longo do ano, com a presença de um dos realizadores, Jorge Jácome, encerrando-se a noite com uma “conversa” sobre essa atualidade, a que se juntou Vítor Marques, do Cine Clube 9500 (Ponta Delgada).
Este projeto teve de facto um valor significativo no enriquecimento das pessoas que por lá passaram, contribuindo para o desenvolvimento social da ilha, felizmente agraciado por uma interessante quantidade de apoios recebidos, desde a Direção Regional da Juventude, à própria Culturangra/CMAH, RTP-Açores, NewCopy e ViaOceânica.
Terminando então em grande esta mostra, a estreia do mais recente filme de Joaquim Sapinho foi uma sessão deslumbrante. Este reconhecido realizador português (nascido no Sabugal, em 1965), oferece-nos uma verdadeira pérola cinematográfica, onde “sofremos de prazer” com as interrogações e angústias da vida, na eterna busca pela capacidade de amar por parte da nossa humanidade.
Depois de filmes como “Corte de Cabelo” (1995), “A Mulher Polícia” (2003) e “Diários da Bósnia” (2006), o seu grande projeto de trabalho foi este filme, em produção há cerca de 10 anos, atingindo desde 2011 um reconhecimento internacional merecido.
Como refere Laura Quinteiro Brasil, na folha de sala que acompanhou a sessão, trata-se de “um filme sobre a procura do próprio eu, é um filme sobre a necessidade de renascer (…) este filme é este e o outro lado da ressurreição”.
Para 2013 ficou a promessa por parte da organização de desenvolver um projeto semelhante, mas centrado no cinema realizado e produzidos nos Açores, ainda em fase de recolha de apoios financeiros e logísticos, condição essencial à sua realização.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

New Foxygen For Music


Foxygen - We Are The 21st Century Ambassadors of Peace and Magic (2013)


Para todos os efeitos este é o primeiro disco de longa duração editado pelos Foxygen (dois jovens amigos de Los Angeles), no que pode ser considerado um duo de rock experimental. Aclamado pela crítica, acabou por criar um certo movimento de culto, mas com base na criatividade e coerência das suas músicas, e nada mais.

O som é nitidamente neo-psicadélico, ou seja, baseado na música psicadélica dos anos 60 e 70, talvez na sua vertente mais rock, como os Beatles ou mesmo os Beach Boys... parece foleiro não é? Não, é a releitura atual mais interessante - quando bem feita, como é este o caso.

Pessoalmente fazem-me lembrar a cena mais calma dos Rolling Stones, com um cheirinho a Tame Impala... Muito Bom!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Antropologia e as Questões de Género...

Margaret Mead - Sexo e Temperamento (1935)


Obra seminal de Margaret Mead, de 1935, onde se apresentam os estudos sobre três tribos da Nova Guiné, desde a sua infância à idade adulta, no que diz respeito à sua intimidade. 

As três tribos, bem diferentes entre si (Arapesh, Mundugumor e Tchambuli) ajudam a autora a expor a sua teoria, onde argumenta que as diferenças entre géneros (homem e mulher) não se baseiam em questões sexuais fundamentais, mas sim em condicionantes culturais de diferentes sociedades, ditando posteriormente a base dos estudos que surgiriam sobre a questão de género.

Faleceu em 1978, e durante os anos 60 e 70 tornou-se uma figura conhecida dos Estados Unidos por surgir recorrentemente na televisão, muitas vezes em questões relacionadas com o género.

Um facto curioso, mas de alguma relevância histórica, é que este trabalho de Mead, católica anglicana, ajudou a moldar a revolução sexual dos anos 60, e mesmo em alguns contextos de maior conservadorismo, típico do estilo de vida religioso das sociedade ditas ocidentais da época.

Antropologia em ação, ao serviço da humanidade e da civilização...

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pelo Tempo: "Jeff Wall – Uma Rajada Intelectual" (2011-08-07)

 

Tento aproveitar esta oportunidade para abordar temas obviamente do meu interesse, como arte, cultura e comunicação em geral, com alguns laivos à sociedade e à política…
Acho importante a presença destes temas no dia a dia das pessoas, sendo mesmo minha convicção que a arte é um dos principais impulsionadores de um verdadeiro desenvolvimento social sustentável, equilibrado e civilizado.
Assim, e numa perspetiva local, tento quando possível, que o teor deste espaço seja regional ou nacional… que não é o caso de hoje.
Há muito que tenho desejo de escrever sobre Jeff Wall, mesmo sendo difícil definir, mas deve ser o meu fotógrafo preferido. Tenho outros, nacionais e internacionais, mas este marcou-me particularmente, talvez por tenha sido através das suas imagens que comecei a aprender sobre fotografia contemporânea.
Nascido em 1946 no Canadá, desde os anos 60 e 70 que se tornou uma das principais figuras da cena artística de Vancouver, cuja escola ajudou a definir através de vários trabalhos escritos de relativa importância. Está sempre muito presente esta cidade no seu trabalho, misturando a sua beleza natural, e decadência urbana e mesmo moral.
Estudou na Universidade de British Columbia e no Courtauld Institute, e depois deu aulas em várias universidades e institutos, assim como publicou outros importantes ensaios sobre fotografia e arte sobre com vários artistas de renome internacional. Entre os vários prémios que já recebeu, destaque para o Hasselblad Award, reconhecido prémio de uma academia sueca em fotografia.
Enquanto estudante, o seu trabalho foi bastante experimental e conceptual, como se deseja num jovem, mas só em 1977 produziu o que se pode definir como as suas primeiras “foto transparências retro iluminadas”, pelo que ficou conhecido mundialmente, geralmente encenadas e referindo-se a problemas da história da arte e filosofia.
Embora seja praticamente impossível referir apenas alguns trabalhos de Jeff Wall, gostaria de destacar “Mimic” (1982), que desmonta o seu estilo cinematográfico: um casal branco e um indivíduo asiático, ambos de frente para a câmara, num ambiente norte-americano suburbano, onde o homem branco, num gesto de troça e racista, levanta com o dedo o canto superior do seu olho, simulando os olhos orientais. No que parece uma fotografia casual, muito trabalho e técnicos foram utilizados, para conseguir naquele momento representar o que Wall desejava, ou seja, aquela tensão social implícita, que afinal se baseava num gesto que o artista tinha mesmo presenciado.
Uma das suas imagens mais conhecidas deve-se ao facto de a banda norte-americana Sonic Youth a ter escolhido para o álbum “The Destroyed Room: B-sides and rarities”, de 2006, uma importante coletânea para os seus fãs. A fotografia, de 1978, deu mesmo origem ao nome do álbum, de extrema importância para o futuro trabalho de Jeff Wall, como que um manifesto contextualizado de revolta e agressão à vida doméstica, ao bom estilo punk académico dos Sonic Youth.
Jeff Wall pretende aperfeiçoar a “arte de não fotografar”, ou seja, procurar as imagens que se escondem numa cidade, e depois a partir delas construir momentos ficcionados para capturar novamente em câmara. E isto é literalmente uma mistura de performance e realidade, em que a fotografia de Jeff Wall se move.
As suas fotografias são cuidadosamente pensadas e ensaiadas, partilhando técnicas e pensamentos do cinema e da pintura, criando um conjunto de imagens que derivam dessas duas técnicas.
Outro exemplo, a finalizar, e uma das minhas peças de referência, é o trabalho “A Sudden Gust of Wind (after Hokusai)”, de 1993, atualmente parte integrante da Tate Gallery. Trata-se de uma transparência das já referidas, com 2,2 x 3,3 metros. Grande e luminosa. É baseada numa xilogravura do artista japonês Katsushika Hokusai, de 1831, que representa a época dos tufões e retrata um grupo de viajantes lutando contra os fortes ventos, agarrando-se aos seus chapéus e haveres.
Jeff Wall transplantou essa imagem para a sua Vancouver, e demonstra um grupo de personagens apanhados desprevenidos por uma súbita rajada, levando um chapéu e muitos papéis pelo ar. O trabalho foi construído a partir de 50 imagens, tiradas ao longo do ano, que depois foram digitalizadas e processadas, quase como na produção de um filme, mas trata-se “apenas” de uma fotografia… isto é Jeff Wall.