terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pelo Tempo: "Ana Vieira - Um Muro de Abrigo" (2011-09-01)


Ao receber, via facebook, o convite para a exibição do filme “Ana Vieira: e o que não é visto”, pelo 9500 Cine Clube, reavivei a minha memória em relação ao magnífico trabalho da artista “açoriana” Ana Vieira.
Estreado este ano, e realizado por Jorge Silva Melo, o filme surge após a exposição “Muros de Abrigo”, na Fundação Gulbenkian, e segue a artista durante mais de um ano, contando o processo da organização da exposição.
Tomei contacto com o trabalho de Ana Vieira pela primeira vez em 2004, com um projeto que ainda hoje me habita o pensamento, intitulado “Casa Desabitada”. Tratou-se de uma instalação múltipla numa casa desabitada e devoluta, na Rua Ivens, nº56, 3º esquerdo, Lisboa. Entre 8 de maio e 6 de junho de 2004, a lógica era a casa ter um aspeto de ser habitada, de acordo com a artista, enquanto o visitante sentia-se sempre um voyeur. Consistia de várias instalações sonoras e vídeo, como por exemplo, uma voz que dizia aos visitantes para saírem da casa, tipo voz de anúncio de aeroporto ou uma discussão entre marido e mulher. Ainda hoje é uma das memórias mais presentes que tenho de intervenções artísticas a que tenha assistido.
Ana Vieira nasceu em Coimbra, em 1940, e depois de passar a infância e adolescência em São Miguel, mudou-se para Lisboa com vista a estudar Pintura na Escola Superior de Belas Artes (1964).
O seu percurso não seria a pintura, mas sim a construção de espaços, sensações e emoções, como que num cenário ou simulação da realidade a três dimensões. Vivendo sempre em Lisboa, são muitos anos de trabalho e de uma carreira que penso não ter sido merecidamente reconhecida. Talvez seja apenas facciosismo açoriano, talvez seja “apenas” admiração por um trabalho poético e interventivo de qualidade!
Acabou por se estabelecer no terreno da instalação, termo sempre algo suspeito para quem anda mais distanciado da contemporaneidade, mas é o que melhor define o trabalho de Ana Vieira. Fez vários trabalhos na área da cenografia e construção de figurinos para teatro, assim com trabalhos em museus, onde estava sempre presente a manipulação de objetos tridimensionais, como em toda a sua poética obra.
No seu percurso já foi reconhecida diversas vezes, destacando-se a 1ª Bienal dos Açores e do Atlântico, o concurso Dyrup/Cidade de Lisboa, e o prémio da crítica portuguesa AICA/SEC. A Fundação de Serralves dedicou-lhe a sua primeira exposição antológica em 1998, e entre 2010 e 2011, o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, em colaboração com o Museu Carlos Machado de Ponta Delgada, apresentaram a maior retrospetiva na carreira da artista plástica.
Encontra-se representada em coleções como das já referidas Centro de Arte Moderna e Fundação Serralves, Coleção Berardo, Musée Cantonal des Beaux-Arts (Suiça) e Fundação EDP, entre outras.
Mas foi a exposição “Muros de Abrigo” que a trouxe de volta, pelo menos à comunicação social, proporcionando-lhe alguma visibilidade merecida. Com curadoria de Paulo Pires do Vale, esteve patente na Gulbenkian entre janeiro e março de 2011, e tratou-se de uma visita ao vasto trabalho e poética de Ana Vieira, desde os anos 60 até ao presente.
O título refere-se à sua memória de infância, quando se dirigia para os muros de abrigo (para proteção da vinha) na quinta dos seus pais, em São Miguel, abrindo portas umas atrás das outras para lá chegar.
Aliás, as referências a muros, portas e janelas são recorrentes na obra de Ana Vieira, estando sempre presentes nos ambientes que cria. Pega em objetos simples, e confere-lhes uma estranheza e poder, que se tornam impertinentes, incomodativos até. E é isso um bom trabalho artístico, questionando, incomodando, ou como se diz recorrentemente nos Açores, inquietando!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Jospeh Amaral - um bom regresso...








Joseph Amaral nasceu em São Miguel, e aos 6 anos emigrou para o Canadá, onde fez a sua formação e se estabeleceu profissionalmente. Agora regressou aos Açores,  onde recentemente expôs na Academia das Artes dos Açores.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"The Dude", Big Lebowski

The Big Lebowski (1998)

Este não é apenas mais um dos filmes dos irmãos Cohen, mas sim um dos seus mais marcantes para o conceito de cultura popular do cinema. Recheado de excelentes atores, coube a Jeff Bridges representar Jeff Lebowski, "The Dude", numa típica história de engano de identidades, onde ocupa o lugar de um milionário a tentar salvar a sua mulher de um sequestro.
Esta brilhante comédia de costumes e de época, que nem teve grande sucesso quando estreado nos cinemas, tornou-se um dos mais significativos filmes de culto dos últimos anos, nomeadamente nos EUA, onde inclusive se formou uma religião em torno da personagem de Bridges (o "Dudeísmo"), com base na atitude desleixada e boa onda permanente...
De destacar ainda a brilhante banda sonora, tão típico dos irmãos Cohen.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Marcel Mauss - uma verdadeira dádiva

Marcel Mauss - Ensaio Sobre a Dádiva (1925)

Este foi sem dúvida um dos livros que mais me marcou na fase inicial da licenciatura em Antropologia, do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, no original Essai sur le don: forme et raison de l'exhange dans les societés archaiques, ou seja, "Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas".
Publicado no longínquo ano de 1925, aborda as trocas nas sociedades tidas então como primitivas, sendo considerado por muitos como o mais antigo estudo de carácter etnográfico, antropológico e sociológico sobre reciprocidade, intercâmbio e o conceito de contrato.
O trabalho refere-se à investigação entre os indígenas das Ilhas Trobriand (Papua Nova Guiné) e índios da América do Norte, sobre o conceito da dádiva.
Resumindo, este ensaio foca-se na troca de objetos entre grupos, e de como essa troca constróis relacionamentos entre esses grupos, pois ao doar um objeto (ou presente), o doador cria uma obrigação face a quem o recebe, que por sua vez fica com o ónus de devolver um presente, originando uma das primeiras formas de economia social e solidariedade social que realmente unem os grupos humanos.
Faz parte da abertura da mente para o humanismo existente nos estudos antropológicos...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Panda Bear - Tomboy - Experimentar - Lisboa

Panda Bear - Tomboy (2011)

Disco repleto de várias camadas de música, este trabalho de Noah Lennox traz-nos um melódico som, onde, e pelo facto de viver atualmente em Lisboa, se destaca o curioso tema "Benfica", dedicado à vitória, e que inclui alguns sons ao vivo do estádio... tal pena não viver no Porto.
Este novo herói da música "alternativa" produziu uma mudança radical em relação ao seu último trabalho, contranstando, obviamente...
Conhecido pelo seu experimentalismo, obteve reconhecimento internacional como membro e fundador dos Animal Collective, um coletivo de Baltimore já com muitos discos produzidos e um forte impacto na comunidade independente da música norte-americana.
A experimentar, como eles...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A Sombra do Vento – leitura de um verão (2011-08-09)


A começar pelo título, o livro que hoje decidi escamotear, fez as delícias do meu verão literário. Não têm abundado os livros lidos por mim nos últimos anos, pelo menos sem cariz académico ou de interesse profissional.
Sou um fã incondicional de Graham Greene, sobre quem já deveria ter escrito, nem que seja apenas pela perspetiva de partilhar um dos autores mais intensos moralmente que já li, assim como um génio da narrativa. Regressando ao texto, nos últimos anos, nenhum outro livro me atraiu ou fascinou tanto como A Sombra do Vento, do agora mediático Carlos Ruiz Zafón.
Lançado em 2001, na continuidade de uma série de livros de cariz juvenil e fantástico, adota um estilo definitivamente adulto e intenso. A história passa-se em Barcelona, cidade já mágica de si, mas ainda mais carismática nas linhas desta obra. Começando em 1945, vamos seguir a história de um jovem, Daniel Sempere, que no seu 11º aniversário é levado pelo seu pai a um lugar que lhe vai mudar a vida: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde depara com um livro com o mesmo título da obra: A Sombra do Vento! Começa a aventura.
Daniel, que perdera a sua mãe poucos anos antes, fica fascinado pelo livro, iniciando uma busca de informações e dados sobre o livro e o seu autor, descobrindo que alguém anda a comprar e destruir todos os exemplares.
Existe de certo uma base que parece levar para o fantástico, tipo Harry Potter ou as profecias de Dan Brown, mas depois a densidade elevada dos personagens remete-nos para outro tipo de leitura, mais profunda, mais humana e nada fantástica.
Acho que se pode fazer um breve resumo, afirmando que reúne técnicas de intriga e suspense, romance histórico e comédia de costumes e valores, sendo no fundo uma trágica história de amor com uma grande força narrativa e uma intriga que se mantém até á última página!
Este livro tornou-se num fenómeno nos últimos anos, tendo atingido a incrível cifra de 6,5 milhões de exemplares vendidos, em cerca de 20 países, e por um autor que se estreava em obras mais adultas, depois das já referidas aventuras de cariz juvenil que tinham obtido algum sucesso.
Desconhecia por completo Ruiz Zafón, e este livro veio parar-me às mãos, ao bom estilo da sua sedutora história, por mero acaso (mais ou menos…), sendo-me oferecido pelo aniversário. E foi um belo presente, pois é de facto um livro que nos faz sonhar.
Carlos Ruiz Zafón nasceu em 1964 em Barcelona, cidade que, segundo me parece, será sempre a base das suas grandes histórias. Em 1993 ganha o seu primeiro prémio, com a obra O Príncipe da Névoa, o seu primeiro livro!
Publicou depois mais quatro romances, sempre de cariz juvenil, até A Sombra do Vento, finalista dos prémios Fernando Lara e Llibreter. Em Portugal foi premiado com as Correntes d’Escritas de 2006.
Durante a sua juventude era conhecido pelos amigos por inventar histórias assustadoras, fascinado por um mundo de robôs, fantasmas e palacetes modernistas. Vive atualmente nos Estados unidos, onde obteve igual sucesso ao nível de vendas e crítica, e escreve também guiões para cinema, mantendo uma colaboração com os jornais El País e La Vanguardia, na sua natural Espanha.
Em 2008 saiu o seu último romance, O Jogo do Anjo, tendo já vendido mais de um milhão de exemplares em Espanha. Talvez seja a minha próxima leitura, daqui a uns seis meses…