terça-feira, 16 de outubro de 2012

Wong Kar-Wai: sempre disponível para amar...

In The Mood For Love (2000)

Talvez depois de Chunking Express, este tenha sido o filme que catapultou o realizador chinês Wong Kar-Wai para o reconhecimento internacional, com um estilo bastante próprio, de um grande perfeccionismo visual.
Em Disponível Para Amar (versão portuguesa), aborda um amor platónico entre dois vizinhos, ambos vítima de traição pelos respetivos parceiros, mas que ao mesmo tempo não podem consumar o seu amor...
Trata-se de uma intensa história, não só de amor, mas de insinuações, numa narrativa complexa, mas visualmente viciante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Jethro Tull: nitidamente 40 anos à frente do seu tempo...

Jethro Tull - Aqualung (1971)

Numa época em que o "neo-punk" e um certo "glamour-retro-punk" (?), com toques de gótico, vigora com sucesso as frescas mentes dos ouvintes, em casos como Ariel Pink, Beach House ou mesmo uns mais batidos Animal Collective, lembrei-me de procurar no baú das minhas memórias musicais... e a redescoberta dos Jethro Tull foi óbvia!
Muitas vezes catalogados como "hard-rock", o que nos dias de hoje já não pegaria na comunicação social especializada, trata-se de facto de uma banda com uma visão social brilhante, de forte sentido crítico e com muito humor, para não falar numa verdadeira abordagem a um som que poderíamos intitular "folk-punk".
Este álbum em particular, um dos meus favoritos, surge numa época (1971) bastante conservadora, e com um discurso anti-igreja, mexendo com as mentalidades da época. Foi chegando no entanto aos "tops" devido à muito boa música patente no trabalho...
Neste mistura de "hard-rock" com "folk", com um som verdadeiramente atual, demonstram a intemporalidade da música, mesmo da mais radical e controversa, e que celebrou 40 (!) anos em 2011, tendo sido reeditado várias vezes e com diferentes remasterizações, pois curiosamente, não tem a certeza de qual foi a cassete original que deu origem ao disco... coisas à Ian Anderson!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pelo Tempo: "Cannes – Cinema e Justiça" (2011-07-07)


As injustiças têm de ser combatidas, e mesmo vivendo num clima muito complicado em Portugal, existe infelizmente sempre alguém que se encontra em situação pior. Volto a referir a situação de Jafar Panahi, realizador iraniano sobre o qual já escrevi neste espaço, e que continua em prisão domiciliária e proibido de trabalhar durante 20 anos!
Mas a comunidade internacional não esquece esta situação, e prova disso é o facto de ter sido apresentado um filme seu, produzido quase clandestinamente, no renomeado Festival de Cannes, depois de no ano passado ter sido proibido pelas autoridades iranianas de nele participar enquanto membro do júri.
Cannes sempre teve um toque de irreverência, e se deve o seu início ao inconformismo perante o fascismo alemão e italiano, no fim dos anos 30, acaba por ter a sua primeira edição em 1946, tendo uma continuação intermitente devido a problemas financeiros.
Ganhou uma grande conotação “cor-de-rosa”, ao tornar-se de facto um dos eventos mais glamorosos do planeta, e um momento fundamental para o turismo no sul de França, mas sempre elevando a sua qualidade cinematográfica.
É o grande encontro mundial da indústria cinematográfica, onde os profissionais da área tem oportunidade de encontrar apoios, gerar mega projetos e internacionalizar ainda mais os seus contactos. Desde os anos 60 que realizam durante o festival o Mercado do Filme, que conta com mais de 10.000 participantes e 4000 filmes, sendo o principal mercado do mundo.
O seu ponto forte talvez seja o delicado equilíbrio entre a alta qualidade artística e o impacto comercial dos filmes apresentados, garantindo uma publicidade e divulgação a nível internacional, mas mantendo sempre a importância da noção de “cinema de autor para uma grande audiência”.
Este ano, entre 11 e 22 de maio, foram muitos os que pretenderam almejar os referidos prémios, desde o filme de abertura do festival, “Midnight in Paris” de Woody Allen ao filme biográfico sobre Nicolas Sarkozy, “La Conquête”.
Muitas vedetas passaram pelo evento, como os mediáticos Angelina Jolie e Brad Pitt, os representantes europeus Nanni Moretti e Pedro Almodôvar, ou os destaques do ano, com o realizador de “A Árvore da Vida”, Terence Mallick e o membro do júri, Robert De Niro.
Um dos momentos quentes foi a apresentação do filme de Panahi, “In Film Nist” (Isto Não é um Filme), uma espécie de diário biográfico sobre um artista impedido de trabalhar... Outro corajoso realizador iraniano conseguiu também produzir um filme nas barbas das autoridades, Mohammad Rasoulov, com “Be Omid-e Didar” (Adeus), retrata a vida de um advogado em Teerão que tenta sair legalmente do país, encontrando várias dificuldades.
Outro momento quente acabou por serem as “difamatórias” declarações do louco Lars von Trier sobre a sua “compreensão por Hitler”. Do seu filme, “Melancolia”, destaca-se a vitória para a melhor actriz, Kristen Dunst.
A Palma de Ouro, o mais prestigiado prémio, foi para o esperado filme de Malick, “A Árvore da Vida”, tendo Jean Dujardin ganho o prémio de melhor actor, em “The Artist”. Destaque ainda para o Grande Prémio, com o empate entre "O Garoto de Bicicleta", de Jean-Pierre e Luc Dardenne, e "Once Upon a Time in Anatolia", de Nuri Ceylan.
Ao nível das revelações e da inovação, destaque para cinco filmes e os seus respectivos realizadores: “Polisse”, de Maïwenn Le Besco (filha de Luc Besson, o conhecido actor francês); “Drive”, de Nicolas Winding Refn; “Take Shelter”, de Jeff Nichols (com pretensão aos Óscares…); “Return”, de Liza Johnson; e “Elena”, de Andrei Zvyaguintsev.
Agora resta esperar pelas estreias em Portugal, e como dizia o outro: “bons filmes”!

PS. Já os vi quase a todos, passado mais de um ano, com destaque para o próprio filme de Panahi e o de Woody Allen.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Rei da Exposição: Brian Matthew Hart

 how to stand | 2011

lauren on couch | 2012

right hand [unfinished diptych] | 2012

Estas são algumas imagens do fantástico trabalho de Brian Matthew Hart, um verdadeiro mestre do desenho com luz, como o exemplo desta mão, feita com 324 fotografias onde utiliza a luz em movimento.

Esta técnica fotográfica consiste em exposições movendo uma fonte de luz, como aquelas famosos fotos das luzes de automóveis em torno de uma praça qualquer... Este trabalho tem origem, e faz mesmo lembrar, os seus percussores, como Frank Gilbreth, Man Ray ou Barbara Morgan:

Barbara Morgan - Samadhi

Frank Gilbreth - Work Simplification Study

Manray - Lightpaiting

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Monty Python (versão editada para advogados...)

Monty Python: Almost the Truth - Lawyers Cut (2009)

Este documentário de 2009, de seis episódios, que a RTP2 brilhantemente se lembrou de exibir, cobre o trajecto deste grupo, as suas vidas pessoais antes do projeto, e os trabalhos desde o marcante Flyning Circus até aos nossos dias, com o óbvio destaque para And Now For Something Completly Different (E Agora Para Algo Completamente Diferente, 1971) e Holy Grail (Em Busca do Cálice Sagrado, 1975), assim com Life of Brian (A Vida de Brian, 1979) e o filme final, The Meaning of Life (O Sentido da Vida, 1983).
São indiscutivelmente os pais da comédia moderna, com a insistente fórmula britânica do insólito e non sense, e marcaram várias gerações, mesmo já não realizando um trabalho há quase trinta anos (em conjunto...).
Como é possível esquecer os vários ataques de escoceses, com as camisas amarradas à cabeça e em trajes de mineiros, o famoso jogo de futebol entre os filósofos gregos e alemães, ou os pajens, acompanhando a trote com o som de dois cocos o seu cavaleiro apeado em plena busca do Graal.
Este sim, unidos, jamais serão vencidos!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

OuVido: Akron/Family, em pura liberdade criativa...

Akron/Family - Set 'Em Wild, Set 'Em Free (2009)

Os Akron/Family, talvez ainda pouco conhecidos em Portugal, são originários de Nova Iorque, mais especificamente do bairro "indie/hippie" de Williamsburg, Brooklyn, um dos atuais locais de referência para a música nos últimos 10 anos.
Do folk ao rock experimental, passando obviamente pelo psicadélico, esta banda já nos deu de tudo. Este trabalho de 2009 começa com um funk bem ritmado, e leva-nos ao soul, indie eletrónico e paisagens sonoras do mais variado possível, por estes três jovens revolucionários.
Também há uns meses atrás ninguém conhecia ou dava crédito aos Beach House e Ariel Pink, e agora é ouvi-los em anúncios televisivos e programas de imobiliária e design...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Pelo Tempo: "Sinfonia Imaterial – O Filme" (2011-06-16)


Foi apresentado esta semana no Auditório do Ramo Grande, numa iniciativa da Direção Regional da Cultura, o filme “Sinfonia Imaterial”, de Tiago Pereira. Este projeto resulta de uma encomenda feita pela Fundação INATEL, em coprodução com a Associação Pé de Xumbo e com o apoio da referida direção regional.
O realizador Tiago Pereira, com total liberdade criativa, fez uma longa viagem por Portugal, do Minho aos Açores, entre março e abril deste ano, filmando exemplos de tradições musicais e não só, conseguindo suaves e interessantes transições entre diferentes momentos.
O filme não tem narração, nem voz-off, nem legendas, sendo-nos apenas apresentado o local e instrumentos a serem executados. Trata-se de uma peça, que não sendo um documentário, também não é necessariamente ficção, mas um filme sem narrativa, que mais poderá ser considerado um “sampling” (misturar) de momentos espontâneos de tradição musical e cultural.
Dos Pauliteiros de Miranda a uma senhora faialense de 91 anos a tocar guitarra portuguesa com uma firmeza e qualidade indiscutível, são muitas as tradições e instrumentos musicais que nos aparecem ao longo do filme, das rabecas aos adufes, das violas da terra ao curioso “bexigoncelo”, instrumento em desuso nas tradições madeirenses, e que consiste na utilização de uma bexiga de porco para a elaboração de um instrumento que faz lembrar um violoncelo, mas apenas com uma corda.
Como foi também referido pela representante do INATEL, não foram tidas em conta quaisquer preocupações científicas, de cariz etnográfico ou musicológico, mas apenas a captação de registos espontâneos da tradição musical hoje em dia. As filmagens são sempre em plano fixo e enquadradas numa paisagem natural, em tascas ou em salas de estar.
Tiago Pereira, o realizador, de 38 anos, desde cedo se interessou por som e animação, tentando sempre aliar o tradicional com o contemporâneo, com um objetivo bem definido: chegar à tradição de futuro. Foi já distinguido por vários filmes, como “11 Burros Caem no Estômago Vazio” e “Quem Canta Seus Males “Espanta”, em festivais como o DocLisboa, Dialektus Festival (Hungria) e Ovarvídeo.
Podendo-se identificar mais com um músico do que como realizador, os seus filmes são autênticos exemplos de “sampling” visual e sonoro, sempre misturando o tradicional e o contemporâneo, referindo-se inclusive a DJ Spooky, o famoso “sampler” norte-americano (que mistura tudo, desde uma campainha de telefone a um chocalho de cabras), cujo lema é “deem-me dois discos e dou-vos o universo”, ou como em tom de brincadeira diz Tiago Pereira: “deem-me duas velhinhas e eu dou-vos o universo.
Trata-se pois de uma interessante abordagem ao património oral português, em constante mutação e utilização por centenas de milhares de pessoas, não se podendo no entanto comparar a abordagens mais académicas da área da etnomusicologia e das recolhas das tradições orais, com as principais referências portuguesas a serem “atiradas a um canto” pelo realizador, propositadamente, imprimindo uma linguagem mais contemporânea, na minha opinião igualmente importante.
São várias as referências aos importantes trabalhos de Michel Giacometti, Artur Santos, Fernando Lopes-Graça e Ernesto Veiga de Oliveira, nos anos 50, 60 e 70. Mais recentemente são de destacar também Rui Vieira Nery, José Alberto Sardinha e ainda Manuel Rocha (Brigada Vitor Jara). Todos estes nomes seguem uma linha de ação que pretende estudar a música no seu contexto cultural, ou o estudo da música como cultura, concentrando-se na forma de compreender o porquê daquela música ser como é.
Entre exemplos de todo o país, os Açores talvez sejam a região mais representada, começando e acabando o filme na região. Dos foliões das várias ilhas, passando pelas cantigas ao desafio, até ao chamamento do búzio, são vários os momentos que nos tocam mais fundo, pois identificamo-nos automaticamente.
Um belo registo, que provavelmente voltará a ser exibido na região.